quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Vida no bar

Julio tinha 27 anos e acabara de sair de um relacionamento de 5 anos. Estava no velho bar da 403 sul. Bebia o litrão de cerveja desesperadamente, acendia um cigarro atrás do outro, tentava esquecer que estava vivo.

O rock 'n' roll é uma força motriz interessante. Tudo começou em uma festa da universidade Federal. Era o seu 4º semestre de psicologia, curso que acabou por abandonar depois de ter publicado um romance de relativo sucesso. Mas, na época, Julio nem sonhava que sua prosa iria pagar o aluguel. Estava lá, com os velhos amigos do Ensino Médio. Jeans surrado e jaqueta de couro. Sempre com a porra do cigarro na boca. "Essa merda ainda vai me matar", ele pensava enquanto se lembrava do passado, mas, na época, fumar ainda era uma atividade juvenil e glamourosa.

Era uma festa de calourada. Dj's iriam tocar o melhor do rock britânico, dubstep, trance, outras músicas de maluco. Mas a grande atração era "Carol Vaughan e os Vermes Assassinos".
"Que nome mais escroto, velho!" Julio disse aos amigos quando ficou sabendo. Todos riram. Era um puta nome escroto mesmo. "E quem é essa 'Carol'? Quem ela pensa que é pra roubar o sobrenome do Stevie Ray Vaughan?"  Seus amigos concordaram. Era muita prepotência. Essa cidade só tem banda bosta atualmente. É muito ego e pouca honestidade musical.

Julio já estava de porre  e ascendia seu ultimo cigarro quando a banda de Carol começou a tocar.

Dois moleques magrelos e uma garota loura subiram no palco. A plateia rugiu. Todos os amigos dela estavam presente, ao que parecia. Equiparam seus instrumentos, e a tal garota foi até o microfone principal com uma stratocaster branca em punho.

"Eu sou a Carol e nós somos os Vermes Assassinos!"

A casa quase veio abaixo.

"Puta merda, hahahaha" disse Julio.

As primeiras notas começaram.

O cigarro de Julio veio ao chão. Sua boca estava escancarada. A música o fez entrar em estado de transe.

Era Texas Flood do Steve Ray Vaughan. Executado por uma única guitarra. A guitarra de Carol Vaughan. E a voz. Ela tinha uma voz grave, afinada. Muita personalidade envolvida. Não era um cover qualquer. Era uma versão de uma musicista competente.




Carol descia do backstage quando foi abordada por um garoto descabelado.

"Carol?"

"Eu!"

".... Aquilo foi... incrível!... quer dizer, você deve ouvir isso o tempo todo."

Ele era bonito.


"Eu nunca vi ninguem executar SRV com tanta precisão! Você usa corda .013?"

"Hahaha... não. Uso .011. É o máximo que consegui chegar"

"Mesmo assim... uau! Não imaginava que eu ia ouvir blues de qualidade hoje.... obrigado!"

"Eu que agradeço.... cara.... Desculpa, mas qual seu nome?"

"Julio. Julio Branco."

Os olhos dela brilharam

"Julio Branco!? Aquele Julio Branco? Autor do blog "Cartas d'Além da Ponte?"





Não é preciso dizer, a conexão foi instantânea. Dentro de um ano estavam morando juntos.
Ele era a musa dela, e vice-versa. Ela amara-o desde o início. Desde a primeira vez que acessara o blog de poesias. E o blues-rock dela o seduzira irreversivelmente. A voz dela, as sardas, os olhos verdes. O jeito blasé dele, os cabelos rebeldes, os olhos castanhos. "Você deveria fazer cover de Strokes" Ela sempre dizia. Ele parecia mesmo com Julian Casablancas. Mas cantava como um camelo com sede.




No fim das contas, tudo era passado. Não interessa como tudo terminou. Ele só queria esquecer, de qualquer forma.

Julio acendou outro cigarro e olhou para dentro do bar. Carlos, um rapaz de cabelos negros encaracolados e óculos de armação grossa, desviava dos transeuntes e se aproximava de sua mesa. Julio suspirou fundo. Um rosto amigo. Havia esperança, afinal.

Carlos sentou-se.

-  Rapaz, que fossa heim. - Disse enquanto olhava o engradado quase cheio no pé da mesa.

- Cadê O Rodrigo??

- Foi visitar a família no Mato Grosso.

-Estranho ver vocês separados....

- Nós somos indivíduos, lembra?

-Vocês são um casal bonitinho.

Todos diziam o mesmo de Julio e Carol.

- Pode ser. Mas e você, meu caro? Como está?

- Uma merda. a vida é uma merda.

- Clichê....

- Todo clichê é uma verdade absoluta..... Absoluta, absolute, será que eu deveria pedir uma dose de vodka? EI, SOUZA!

Carlos abaixou o braço de Julio.

- Você já tá podre de bêbado. Que tal ficar só na cerveja?

Julio deu um olhar atravessado, completamente alcoolizado, para Carlos,

-Ok, ok... vou seguir o seu conselho. Você tem TALENTO para conselhoss....

-Eu tento. Me dá um.

Julio alcançou os Lucky Strikes para Carlos. Os dois acenderam seus cigarros e ficaram um bom tempo em silêncio.







- Ela disse que eu continuo o mesmo. Depois de todos esses anos. Ela disse que eu nunca vou tomar jeito.



- Isso... isso é duro, cara.

- É uma merda. Eu achava que ela me conhecia melhor do que ninguém. Se alguém que te conhece tão bem diz que você é um bosta que nunca vai amadurecer, como é que a gente fica? Na bosta. Só me resta isso. A fossa. A fossa para um bosta.

- Amar não é uma tarefa fácil.

- O amor é algo que se dissipa com os primeiros raios de realidade.

- Ok, Bukowski, ok.

-A bosta, a merda, a bosta, a merda merda merda merda merda....

Julio se inclinava para frente, até beijar a mesa do boteco.


- Sabe, Julio... talvez seja melhor assim. Talvez você precise de um tempo sozinho. Pode ser bom pra você.

- A puta que te pariu.

- No fim das contas, amar também é deixar partir. Você precisa se conhecer de novo. 5 anos juntos é um bom tempo.

- Você só ta falando isso pra evitar que eu tenha um coma alcóolico.

- Não. Eu realmente penso isso.


Carlos levantou-se.


-Olha, eu preciso ir. Vê se não bebe o bar inteiro, ok?

- Hhmmmmmm.......

- Te cuida, Branco.

- Dá um beijo no teu bofe por mim.


Carlos riu.

-  Darei.

Afagou os cabelos sebosos de Julio e se foi.

Julio acendeu o ultimo cigarro. Olhou para as estrelas. Galáxias distantes. Muitos daqueles pontos luminosos nem existiam mais. A vida humana é insignificante comparada à imensidão de tudo.

Pediu a conta. Levantou-se e foi pagar no caixa. Pôs-se a caminhar na entrequadra.

O telefone celular vibrou. Uma mensagem. Dela.





"Você vai me odiar se eu disser que sinto sua falta?"




Julio sorriu.




"Enquanto eu existir, te odiar não é uma opção", pensou.