Sempre me considerei um músico. Apesar de não ser daqueles fascinados
por teoria musical. Tampouco aqueles que estudam seus instrumentos 10
horas por dia. Praticar, repetir, progredir, aprender. Nada disso nunca
me agradou. Eu sempre gostei de compor coisas originais. Mas minhas
técnicas de composição sempre foram limitadas apenas por meu gosto e bom
senso (?) em Música. Certo, talvez eu tivesse algum talento, mas sempre me faltou ambição. No Ensino Médio, professores certas vezes me descreviam como "vagabundo". Alguém que não primava por todo seu potencial. Estudar nunca foi um interesse genuíno para mim. Isso deixava meus pais malucos, pois minha "única obrigação é estudar"! Sempre tive conforto nessa vida e ainda o tenho. Mas nunca foi fruto do meu Trabalho. Certo, volta e meia consigo um freelance para compor trilhas sonoras de Videogames (outra paixão minha), mas nunca me rende mais do que uns 40 dólares a cada três meses, por alto. Esses bicos começaram quando resolvi aliar meu gosto por jogos com a fascinação por música. Tentei a faculdade de Desenvolvimento de Jogos Digitais. E como todos os outro cursos superiores que prestei, falhei em me formar. Mas conheci pessoas e vivi coisas interessantes. E tornei esse meu ofício mais eficiente. Meus fonogramas já não soam tão amadores assim, e conseguem agradar clientes aleatórios de outras partes do mundo. Se isso é o suficiente para ser bem sucedido nessa sociedade monetarista, isso é outra história...
Dinheiro. Dinheiro sempre foi um problema. E uma tentação. Sou da opinião de que dinheiro não deveria existir para a sociedade funcionar de maneira justa. Mas quando tenho dinheiro nas mãos, não hesito em gastá-lo para obter fetiches de consumo. Contraditório, como tudo que é humano. Não que eu seja um gastador compulsivo, até porque não tenho fundos para tal, mas não penso no dinheiro enquanto investimento. Seria um péssimo empreendedor. Dinheiro é um meio e não um fim. Se é isso que eles querem, que peguem o meu. E me deem minhas tranqueiras. Meu fone de ouvido para trabalhar nas minhas músicas. Meu mixer de DJ para aprender a tocar em festas, se necessário. Minha placa de vídeo nova para o meu computador, que já está lutando para rodar os jogos dessa geração. A infinidade de Games que eu compro e nunca termino. O dinheiro é um obstáculo para todas essas coisas. Eu o odeio. Eu o desejo veementemente.
Mas não só nessas questões estritamente pessoais, e pra não dizer egoístas. Dinheiro, ou a falta dele, também me impede de pensar no longo prazo. Não consigo ver meu futuro ao lado de um relacionamento afetivo. Como eu vou sair com uma mulher se não consigo nem pagar um café? Sei que não deve ser tão duro assim, e deve haver pessoas na mesma situação que eu. Mas seria confortável ter uma certa independência financeira. Seria bom ter um apartamento só meu, talvez um carro. Um lugar para ir todas as manhãs, um emprego. E é aí que começa a minha empreitada.
Sempre vou ser um artista. Mesmo que o seja apenas nos momentos de lazer. Não tenho a pretensão de monetizar a minha música. Poucas as vezes a obrigação de produzir algo me trás algum tesão no ofício. Mas, no fim das contas, se eu não quero vender a minha arte, o que sobra? Força de trabalho. E é nesse ponto que eu resolvi que quero ser Funcionário Público. Comecei a estudar pra um concurso de Banco. Carreira bancária nunca passou pela minha cabeça quando eu era criança ou adolescente. Mas quanto mais o tempo passa mas eu noto que não podemos fazer só o que ressoa com nossos sonhos e aspirações. A vida adulta também é feita de momentos em que fazemos não o que queremos, mas o que devemos fazer. Eu devo isso aos meus pais, a minha família. Ter uma estrutura nessa vida e conseguir planejar um futuro, cuidar do meu bem estar, estar equilibrado mentalmente, emocionalmente, financeiramente. Tudo isso eu preciso fazer para honrar aqueles que me trouxeram até aqui.
É engraçado. Eu sempre fui um idealista e sempre estive convencido de que não seguiria uma carreira tradicional. Não me renderia a turma dos engravatados. Eu acreditava ser um rebelde, alguém que estaria sempre contra a corrente. Mas vejo que isso, em grande parte, era só um reflexo da imaturidade, dos pensamentos ingênuos, da idealização do que deveria ser a vida de alguém "autêntico". Pra quê isso tudo? A quem eu estou querendo me afirmar dessa maneira? Porque me preocupo, ou preocupava, tanto com minha imagem de revoltado e "inconformado"? Esse preciosismo todo me privou de vivências. E eu sento aqui em frente a este computador e brinco de ser escritor. Mas pra escrever é preciso viver. Eu definitivamente deveria ler mais também, mas, viver é urgente.
Acho que o grande problema sempre foi a procrastinação. Estive muito acostumado aos prazeres imediatos, fáceis, sem esforço. Trabalhar em algo com frequência, constância e persistência sempre foi muito difícil pra mim. Sempre que vejo o lampejo de uma rotina se formando, minha tendência é abandonar, procrastinar. Mesmo nesse exato momento, estou quase me forçando a escrever em meu esforço para reverter essa mania. Comecei a me exercitar fisicamente, pois estou muito acima do peso e minha saúde e condicionamento físico não são lá essas coisas. É difícil ir com frequência à Academia. Mas, pelo menos, estou sempre acompanhando de um grande amigo meu, o Henrique. Isso ajuda a manter a rotina. Estou trabalhando aos poucos nesse problema da procrastinação. E fazer algo 5 vezes por semana, como ir à academia e suar um tanto, já é uma grande mudança ao meu ver. O grande questão será manter. E isso também pode se aplicar à rotina de estudos para o Concurso.
Resolvi que vou estudar 4 horas por dia. Ou, pelo menos, assistir 4 horas de videoaulas por dia. Hoje foi o primeiro dia que segui esse meu novo cronograma então ainda não consigo avaliar o quanto isso está me impactando enquanto ser humano. Mas estudar, dizem, pode ser libertador. Adquirir conhecimento nunca vai ser um desperdício. Hoje, por exemplo, notei que não sou tão ruim assim em compreender a gramática da língua portuguesa e sua morfologia. Na escola eu sempre tive muita preguiça pra aprender qualquer coisa, inclusive a minha língua materna. Então é como se eu estivesse tirando um atraso de uns 15 ou 20 anos. Ou mais. E afinal, se estou tentando desempenhar este papel de escritor, ter uma relação com a língua pode ser produtivo.
Sobre escrever: Eu preciso ler. Eu leio muito pouco. Jogo muitos videogames e leio pouco. Preciso retornar ao hábito da leitura. Então decidi que vou começar pela obra de Tolkien. Pretendo ler o Silmarillion, depois O Hobbit, e então a trilogia O Senhor dos Anéis. Eu nunca terminei essa última, apesar de já ter lido o primeiro livro umas 2 ou 3 vezes. Acho que ler mais vai ser uma grande fonte de inspiração para seguir escrevendo.
Este texto está cada vez mais se parecendo com um diário. Não sei até que ponto isso é bom. Nem se interessaria a alguém ler essas coisas. Mas eu tenho esse sonho estranho de escrever o suficiente para compilar um livro. Será que essas reflexões são dignas de uma publicação? Dizem que a melhor coisa que alguém pode escrever é sobre a própria vida. Estar destrinchando aquilo que é familiar, imediato a existência, te dá uma certa autoridade e firmeza ao tratar do assunto em questão. Pelo menos é isso que penso. Minha vida não é uma aventura. Nem um romance apaixonante. Na verdade, minha vida é bem monótona. Mas o melhor e mais capacitado escritor para tratar dela sou eu mesmo.