Três e meia da manhã. Saí para comprar uísque na conveniência do posto de gasolina mais próximo. 32 anos e morando com meus pais. Trabalhando num emprego de merda. Esse é o cenário que a vida reserva pra mim no auge do século XXI. Digo auge, porque muito provavelmente a humanidade só irá ladeira a baixo a partir daqui. Mas que merda. Caralho, eu não sou ninguém. Não sei conversar com ninguém. Não sei agradar meus interesses afetivos. Sou um merda. E é isso que me sobra. Encher a cara de destilado vagabundo às 4 da manhã. Não sou muito diferente desse meu ex-colega de trabalho, Victor. Foi demitido por faltar demais. Estava sempre de ressaca e bebia como um Opala velho. Pelo menos não tenho filhos. Não dei essa oportunidade de decepcionar alguma prole nesse mundo escroto. Gente demais nesse planeta. Pra quê colocar mais ser humano nessa loucura? Um dos meus melhores amigos, Henrique, diz que está muito satisfeito com sua família, com seu filho e esposa. Eu estou feliz por ele. Mas nunca seguiria o mesmo caminho. Talvez eu deva virar mendigo. Talvez eu deva abandonar todos meus vícios e virar um Monge budista no mosteiro de Pirenópolis. Nada é real. Nada faz sentido. Pra quê perseguir uma vida plena? Não há plenitude. Tudo isso é só um teatro. Uma sociedade que vive de aparências só tem isso: Uma casca frágil e sem resistência. Que quebra no primeiro baque de realidade.
Mas porquê essa fossa toda?
Provavelmente porque fui rejeitado amorosamente por ela. Admirar alguém com as profundezas de sua alma e ser recusado até das migalhas de interesse e afeto pode levar um homem a loucura. "It's always about a girl, even when It's not". Pedro Reis é o maior pensador desse século, e as frases do Juvenillia Café ainda ecoam na minha mente. Mas foda-se. Eu já deveria ter me acostumado. Chet Baker se apaixonava fácil demais, assim como eu. Deu no que deu. Morreu cedo demais e amargurado. "Você fala mal dos Emos, mas age como um o tempo todo" me disse André uma vez em 2006. Ou algo assim. Porra. Ser sensível demais é uma bosta. Às vezes eu só queria ser um macho escroto, coçar o saco e cuspir no chão sem preocupações. De que me serve estar sempre com os sentimentos frágeis? De nada. De porra absolutamente nenhuma. É só um obstáculo. Um impedimento para agir e viver. Estou sempre paralisado. E nem sei bem o porquê.
Aqui estou ouvindo The Doors. Impossível não ouvir a voz de Jim Morrison e não lembra do meu gato, Jim. Meu finado gato Jim. Ele teve uma vida plena, mas eu sentia um pouco da melancolia dele. Abandonado, sem nunca ter mamado da mãe muito provavelmente, Jim era um pouco triste de se ver. Na velhice, ele já estava debilitado. Na juventude, não parecia se encaixar nos estereótipos felinos de forma alguma. Era um estranho, um forasteiro no mundo animal. E talvez por isso, eu me enxergasse tanto nele. Não pertenço a esse corpo. Não pertenço à existência. Eu queria ser o vazio. Eu queria ser o Nada. Mas aqui estou, vivo. É como uma maldição. A vida é uma prisão? Talvez eu esteja pessimista demais. Foda-se. Acho que estar triste é estar vivo. Viver é sofrer. Pelo menos estou sentindo algo. O nada e o vazio não me proporcionaria nada disso. Pensando por esse lado, acho que posso ser grato a minha existência. Tudo passa, eu acho. Isso também vai passar. Vou estar aqui amanhã. E no dia seguinte. E pouco vai importar o pé-na-bunda. Quantos anos tenho pela frente? Se meu coração hipertenso aguentar, diria que seriam mais uns 60 anos. Isso é mais do que eu tenho de vida. Ainda vou me foder muito, demais, nessa vida. E no fim das contas, esse texto será só mais uma lembrança bonitinha de tempos mais juvenis registradas neste blog.
Levanto da minha cadeira e acendo um cigarro. Dou uma pausa nesse vômito de pensamentos. Eu sentei aqui pensando em contar uma Estória. Algo mais narrativo do que isso. Mas é disto que estou cheio: De mim mesmo. É disso que estou sempre cheio: Dos meus problemas e frustrações.
Agora são 5 da manhã. Logo o dia vai raiar. E eu vou ter que vestir minha máscara de "está-tudo-bem". Eu trabalho amanhã. Vou dormir pouco e acordar exausto. Vou cochilar até os últimos minutos e pegar uma carona com papai até o trampo. Como se eu ainda tivesse 13 anos e precisasse ir para a Escola. É isso que me resta. Ser quem eu sou. Não preciso esconder isso de ninguém. Eu só estaria fugindo de mim mesmo.
