quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Famoso

 Uma vez, tocando em um lugar, alguém me disse que eu ia ser famoso.


Eu mandei a pessoa calar a boca usando um microfone.


Hoje eu ainda não quero ser famoso, só quero fazer música.


Mas eu estava errado em agir assim

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O Acólito e a Noite (parte 1)

Acordei no mais bêbado torpor. Eu estava em uma estalagem em algum lugar depois de Sertões. Eu encarava o teto e pensava: Não há nada além da morte. Não há nada além da certeza do fim. No fim das contas estou sozinho. Pensei na minha vida passada. Eu estava longe de tudo que fazia sentido. "Quero estar perto dos meus pais. A única certeza de tudo que faz sentido. Pai e Mãe, vocês são a única certeza de algo que faz algum sentido. Me encare agora. Me diga o que deveria fazer!"


Nenhuma reposta.


Acordei e segui viagem para a Cidade Baixa, a Capital dos Mortos. O que é isso? Ninguém sabe. No fim estou no Fim. Acho que estou enlouquecendo. Segui viagem. Ali estava eu no Burgo Morto-Vivo. Os cadáveres decrépitos andavam desinteressados pelas esquinas, com seus olhares desvivos. Todos aqui já foram algo, um dia. Um estalajadeiro. Um ferreiro. Um guerreiro. Uma ama de leite, uma lavadeira. Uma dama da alta sociedade.

Agora eram todos sombras. 

Se eu ainda tivesse olfato (poucos sentidos dos vivos me restam) eu sentiria o odor ocre das carnes em putrefação em toda parte. Mas ainda assim, creio que me acostumaria. A Cidade Baixa me abrigou quando todo o resto de misericórdia nesse mundo se apagou diante da única certeza. Meu fim. A morte.

Largado em minha cripta, lembro de acordar de supetão, e tentei - em vão - encher os pulmões com uma arfada assustada.

Soquei a tampa do caixão de madeira que se escancarou com uma facilidade questionável. Me apoiei em um cotovelo e com a outra mão e esgueirei minha cabeça fria para fora da tumba. Senti um tufo de cabelo se descolar do topo de minha cabeça.

Foi um susto grande, quando a voz esganiçada do coveiro cortou o ar atrás de mim e vibrou algo que ainda funcionava como um típano dentro de meus ouvidos:

- Saudações, neófito.

Olhei para trás e vi um cadáver de pé, com a parte esquerda da mandíbula exposta completamente esmigalhada. Como era capaz de pronunciar qualquer coisa me era ainda um mistério.

- Mas que c....

- Calma, criança. Você morreu. Sua vida chegou ao fim. Mas a não-vida está apenas no início.

Começava assim, a não-vida para mim.


(...)


O que se seguiu dali foi a coisa mais estranha. O coveiro me apresentou a um Sacerdote no topo na cripta subterrânea. 

- Criança - disse o padre, nas suas vestes brancas - Qual seu nome?

- Meu.... nome?

- Sim. Em vida, seus pais te deram um nome. Qual era?

Durante uns 5 segundos, eu fiquei imóvel nos meus pensamentos. Era como se uma parte de minha memória, uma parte significativa e vital, tivesse sido roubada de mim.

- Meu nome - eu disse, por fim - meu nome é... Hemeritus.

O padre sorriu um sorriso morto.

- É um belo nome. Eméritos são todos aqueles que cumpriram seus deveres. E são dignos das mais altas honrarias.

Fiquei em silêncio. Aquilo nada significava para mim.

- No entanto Hemeritus, meu jovem neófito, você ainda há de se provar ao Clero da Cidade Baixa.

- O que quer dizer com Clero? - Eu perguntei afoito

- Todos que morrem têm uma dívida para com suas próprias almas. A morte não é o fim para nós. Mas o caminho que se segue daqui pode ser tortuoso e vicioso. Organizamos toda uma Religião em volta da Verdadeira Vocação. Aquilo que encontramos como nosso objetivo último em não-vida.

- Verdadeira Vocação? E qual seria?

O padre deu outro sorriso, dessa vez mais pontiagudo que o anterior.

- Eis um dos Mistérios da Fé.

O Sacerdote de branco se chamava Augustus. Ele me levou pela primeira vez para a Cidade Baixa. Me mostrou meu novo lar: Um Mosteiro surrado na periferia da aglomeração urbana. Uma construção de blocos enormes de pedras acinzentadas e cheias de musgos do tempo. Haviam alguns monges mortos em oração no pátio principal. Entoavam cânticos em uma língua esquecida que mais tarde eu viria a me tornar fluente. A sensação geral lá dentro era de solenidade, e humildade.

Entramos por uma pesada porta de madeira na estrutura principal do Mosteiro. Uma Lareira enorme iluminava toda a sala na extremidade dos fundos. E era apenas para isso que servia. Mortos não sentem frio. Não têm tato. O Fogo é nossa lâmpada e nada mais.

- Acomode-se. - Augustus disse, enquanto sentava-se em uma pesada cadeira de mogno. Pegou um grande livro e começou  a rabiscar palavras com um pena molhada de nanquim. Vi meu nome no meio das anotações.

Sentei-me em outra cadeira, mais próxima do fogo.

- Você se lembra da sua vida passada?

Tentei pensar, mas apenas imagens desconexas me vinham a mente. Uma fazenda. Um velho e uma velha. Uma sensação de carinho. Uma noite fria. Uma sensação de terror. O gelado fio de corte de uma espada.

- Não. -  respondi. 

- Tudo bem. É difícil lembrar-se de detalhes nesses primeiros momentos. E, no fim das contas, as circunstancias da sua morte pouco importam.
 
Augustus levantou-se de sua cadeira de maneira reverente.

- Vejo que você precisa descansar.

- Mas.... eu já estou morto.

- Mortos descansam. Sua casca é frágil ainda. Precisa de tempo e práticas para ganhar seu potencial. Até lá, será durante um tempo um cadáver que anda. Precisa cuidar dessa casca morta.

Augustus abriu um pequeno alforge em seu cinto e retirou um pequeno recipiente oblongo com algum líquido dentro. Colocou em cima da mesa. 

- Óleo de mirra. Espalhe esse unguento por todo seu corpo e deite-se lá em cima em alguma cama. Ajudará o processo de embalsamento. Além de ter um cheiro forte que esconde o odor de todo o necrochorume que vai se formar aí dentro, cedo ou tarde.

Peguei o frasco da mesa. Tinha uma aparência de cor de oliva.

Subi as escadarias laterais do salão principal e me dirigi aos aposentos internos. E, pela primeira vez, tive uma noite de sono morto.





Nada de muito interessante acontece no Mosteiro, geralmente. Mas, naqueles breves dias de neófito, as coisas ainda tinham algum tipo de brilho que despertavam minha curiosidade. A não-vida é muito mais longa que a vida em si. Depois de um tempo, tudo se mistura numa cinzenta névoa. Os dias são iguais. As semanas são iguais. Os anos...

É o suficiente para tudo se permanecer inerte na mesmice. Depois de anos, décadas de não-vida, eu nem me lembro mais o que é encher os pulmões de ar. Provavelmente muito me doeria faze-lo, dadas as condições dos meus alvéolos putrefatos. 

Mas a luz do sol raiou morna naquele dia. Após meu primeiro sono morto. Acordei do meu transe e vi o teto encardido de madeira. De alguma forma, me senti acolhido. Ainda que a frieza da morte percorresse por minhas entranhas que apodreciam.

Eu provavelmente fedia, cheguei a essa conclusão. Ainda que não sentisse nenhum cheiro, sentia algo podre dentro de mim.

O óleo de mirra que Augustus me dera tinha um odor marcante, ou pelo menos era isso que ele tinha dito. Instintivamente abri a garrafinha e espalhei o unguento pelos meus braços e tórax. Senti que a podridão se aliviava. Encarei a torrente de luz que entrava pela única janela do cômodo. Fiquei um instante meio que meditando, ouvindo os sons da manhã (os poucos que chegavam dentro do quarto isolado em madeira), depois levantei. Me vesti. E saí porta afora.

Não havia ninguém na estrutura principal. Um silêncio cadavérico reinava lá dentro, de forma que tudo o que conseguia ouvir eram os cânticos abafados dos monges lá fora. Analisei o ambiente. A lareira ainda estava acesa, pintando o recinto com sua luz amarela. As madeiras escuras que formavam a estrutura interna meio que reluziam foscamente a luz do fogo. Me peguei pensando na minha rotina matinal quando vivo. Me lavar, me alongar e comer. Nada disso me parecia razoável agora que eu era um morto. De forma que simplesmente abri a grande e pesada porta da estrutura principal e escapei para o pátio.

Uma modesta névoa cobria todo o pátio. Toda a grama era de um verde-musgo e a áura cinzenta da luz atravessando a névoa conferia uma solenidade singular a todo o ambiente. Os 3 grandes carvalhos que cresciam irregularmente pelo terreno estavam majestosos, e pareciam sussurrar sabedorias a muito esquecidas. Era num desses que os monges sentavam, um ao lado do outro, em semicírculo. Todo o resto do ambiente era um ordenado cemitério. Cheios de lápides já preenchidas por ancestrais que, por qualquer motivo, nunca experimentaram a não-vida. Embaixo da árvore, por entre as lápides, os monges entoavam um cântico monofônico.

Me aproximei com timidez e fiquei de pé, observando.

- "Udrhea.... singalt. Nahir.... unaut."
-  "Vaheli andra thot
-     "Namir... Emsah got."

Outras diversas preces eram entoadas uma após a outra. Todos os monges pareciam unidos em seu transe. Estavam com os olhos acizentados, e cantavam com suavidade e paciência. Nenhum parecia fazer qualquer menção de se destacar, de divergir do ritual. Todos miravam para o mesmo nada em suas frentes. Senti-me meio nauseado. Pareciam que estavam lá desde sempre. Pareciam que estariam lá para sempre. Mais cânticos foram se arrastando em palavras estranhas, ou ainda estranhas para mim naquele momento, e seguindo uma cadência quieta até que os versos foram sendo ditos cada vez mais baixos. Cada entonação foi se parecendo mais com um susurro. Até que, de repente, estavam todos calados.

Da parte central do semicírculo, vi Augustus se levantar. Vestia um hábito simples, muito parecido com os dos demais. Mas carregava consigo um contido incensário de metal, preso por uma corrente. Os elos da corrente trilhintaram enquanto ele se levantava com calma, mas com vigor. Assim que se pôs a caminhar para o centro da roda, vi sopros esfumaçados saírem do incensário. Como se tivesse acendido sozinho. Preguiçosamente a fumaça exalava enquanto o Padre andava, segurando a corrente com a mão direita com o dedo indicador casualmente levantado. Ao chegar ao centro, virou-se para todos e deixou o incensário pender ao seu lado.


- Que o Ouro do Sol brilhe em vossos olhos. - Ele disse, com uma voz um tanto fantasmagórica.

- Que a Noite Eterna se afaste em definitivo. - Todos os outros responderam em uníssono.

Assim que a última voz parou de ecoar, todos se levantaram e, ordenadamente, começaram a se dirigir de volta para a estrutura principal, a fim de começar as rotinas de trabalho no mosteiro. Augustus continuava no centro, e observava atento a todos indo para seus postos. Nossos olhares se encontraram por um instante. Me aproximei dele.

- Vejo que conseguiu descansar - disse assim que cheguei perto.

- De alguma forma... - concluí.

Augustus sorriu de forma amena

- Venha, caminhemos um pouco. Preciso deixar algumas coisas acertadas com você.

  Segui ao lado de Augustus, enquanto ele caminhava em uma pequena calçada de pedras brancas dispostas da grama verde, que levava a uma das estruturas do mosteiro.

- Aqui, trabalhamos para nossa subsistência. Todos têm uma função, que deve ser praticada com zelo e atenção.

Eu seguia calado.

- As funções não são definitivas, mas eventualmente você vai se adequar a algo mais específico. 

Paramos em frente a um pomar de macieiras. As árvores cresciam saudáveis e vistosas. Vi várias maçãs nos galhos, parecendo prontas para a colheita.

- Essa é uma das funções preferidas de muitos aqui. Cuidar das macieiras. Você vê, as maçãs são o ingrediente principal da nossa Santa Cidra. Que usamos para comungar em nossas missas.

Nos aproximamos de uma pequena cabana de madeira ao lado do pomar. Augustus abriu a pequena porta da frente sem muita cerimônia. Haviam diversos barris de madeira escura armazenados, deitados até o teto, na cabana. Se aproximando de uma estante em uma parede no canto, Augustus pegou uma caneca velha de Latão. Se aproximou de um dos barris e deixou correr a pequena torneira que ali estava encaixada. Um gole tímido de líquido dourado se despejou para dentro da caneca. 

Augustus me entregou a caneca com uma expressão satisfeita.

- Prove. - disse ele.

Eu peguei a bebida de sua mão. Olhei para o conteúdo. Reluzia à luz contida do sol que entrava pela porta.

Dei um gole.

Era doce, lembrando um pouco mel, mas mais suave. Modestamente saborosa, a bebida preencheu meu esôfago morto e se alojou naquilo que ainda me restava como estômago. A Cidra parecia aquecer-me as veias, e, de imediato, fui tomado por uma satisfação tranquila, como se estivesse voltado para casa depois de uma longa viagem.

-.... isso é delicioso. - Eu disse

- Claro que é. - disse Augustus depois de uma risadinha satisfeita - Produzido com muito carinho pelos monges. Um dia você vai participar da produção de alguma safra. Mas, agora, preciso que você desempenhe a última função na nossa cadeia de produção.

- O que quer dizer? 

- Nós vendemos os barris excedentes para uma taberna na Cidade Baixa. Isso nos ajuda a custear nosso estilo de vida aqui no Mosteiro. Apesar de não ser nossa única fonte de renda, é de grande ajuda.

- Interessante...

- E agora, precisamos entregar essa ultima safra para a taberna novamente. Eu queria que você ficasse encarregado disso. Não se preocupe, vou designar um dos monges mais experientes para ir com você. O que me diz?

Senti que não tinha muita escolha. Eles me acolheram, e agora eu deveria retribuir.

- Tudo bem. Significa que vamos até a cidade, então.

- Exato. Passamos um bom tempo aqui dentro, mas visitar o mundo de fora ainda é necessário de vez em quando, certo? Mas poderemos cuidar disso mais tarde. Por enquanto, preciso te mostrar outras atividades realizadas por aqui. 

Saímos do pequeno depósito e seguimos o caminho de pedras brancas de volta até a estrutura principal do mosteiro. 

Eu viria a ficar íntimo daquele lugar, muitíssimo em breve. 




(...)








Aquele dia, o dia em que realizaria minha primeira missão, foi só mais um como outro qualquer. Mas, no entanto, coisas que foram ditas e cenas que vi foram diferentes o suficiente para se destacarem pela Eternidade. Não que tenham sido coisas que me colocassem num estado de epifania, foram apenas anedotas diárias, mas, diferentes o suficiente da rotina do Mosteiro para se destacar.

Acordei do mesmo jeito que no meu primeiro sono morto: Encarando o teto.

As sensações de podridão pareciam ter arrefecido, muito provavelmente pelo uso constante do óleo de mirra que Augustus me dera. Sentei na cama, peguei a garrafinha do criado-mudo, e me besuntei mais uma vez, antes de levantar. Ouvia os monges lá fora. Resmunguei, levantei da cama e me vesti.

Desci para o salão principal. Augustus remexia na lareira com uma haste de metal longa, atiçando o fogo. Ele levantou o rosto e me encarou com o fogo refletindo em sua face morta. Sorriu placidamente.

- Ah, Hemeritus. Bem na hora.

Me aproximei dele e cruzei os braços olhando o fogo.

- Os cânticos começam bem cedo, não?

- Claro. É a primeira função de um monge ao acordar: Rezar. Falando nisso, creio que estamos prontos para lhe promover a Acólito.

- Acólito?

-Sim. Responsabilidades e regalias o aguardam, dentro destes muros. O que acha?

Vacilei um pouco. Descruzei os braços e olhei em seus olhos.

- Que escolha tenho, Augustus? Vocês me salvaram.

- Salvamos? - Ele riu. - Salvamos de quê? Você descansava muito tranquilo em sua cova.

Nada disse, apenas desviei o olhar.

Augustus aproximou-se e colocou a mão direita em meu ombro esquerdo.

- Quem vai se salvar é você mesmo, criança. - Ele disse por fim.





















       




sábado, 11 de maio de 2024

Bêbado

 Acordei pensando nela. Seria isso só mais uma história de amor? Creio que não. Bebi 6 cervejas ontem. O suficiente para ficar bêbado na véspera, e ficar normal no dia seguinte. Acontece que eu não consigo dormir de cara. Encarar meus sonhos sóbrio é mais difícil que encarar a realidade. Meus sonhos me julgam mais do que o real. A realidade pouco se fode pra minha existência. O Universo não conspira a favor de ninguém. É apenas a sua força positiva que força bons momentos nesse existir. Acho que estou ficando cada dia mais sóbrio, e, por consequência, louco. Eu sento em frente a essa tela em branco e acredito que tenho mundos e fundos para escrever aqui. Talvez não seja verdade. Eu não sou um obcecado pela minha escrita. Caralhos, eu não sou um obcecado pela minha música, que é minha arte mais proeminente. Eu não sou obcecado por nada. Muitas jovens hoje em dia se orgulham (e eu tirei essa estatística do cu) de serem intensas, de colocarem seus sentimentos mais ardentes em todas suas ações. Praticamente bruxas, donas do seu destino e grande apreciadoras de temperos e especiarias em tudo que é emocional. Devo ser o oposto disso. Não sou nada. Sou a indiferença e o vazio. Sou uma tela em branco que para sempre permanecerá amorfa e sem gosto. Será isso verdade? Eu sempre estou com meus sentimentos frágeis, buscando razões para ser esse ser sensível que sou. O menor dos problemas pode parecer o fim do Mundo. Mas logo passa.


Mais um gole de vinho e um rap de Black Alien no fundo, e aqui estou eu. Hoje eu troquei uma ideia de uns 12 minutos ou mais com ela ao sair do trampo. Ela ia pra um aniversário de uma amiga em uma bar na Ceilândia. Eu agradeci aos céus e a todos os deuses quando vi os pés dela ao subir das portas da loja, quando eu estava saindo. Eu queria beijar a boca dela do nada. Eu queria demonstrar desesperadamente tudo o que sinto quando estamos juntos, só nós dois. Mas a cautela me fez indiferente. Não posso ser alguém que vá ser julgado por suas ações. Melhor não agir então. Essa é minha armadilha definitiva. Eu peco por não ter nada a dizer. Mas, no fim das contas, eu o que sinto não pode ser posto em palavras. Ou pelo menos é isso o que acho. Bukowski era craque nos diálogos. Em trocar experiências entre dois personagens. Eu sou craque na introspecção. Escrever em primeira pessoa sobre o que vejo dos meus sentimentos. Deve ser uma escrita muito mais medíocre do que duas pessoas conversando. Mas, é isso que tem pra hoje. Eu sorrio pensando nesse ditado popular. É o que tem pra hoje. A vida é só o agora. O passado, o futuro, tudo isso é só um delírio em nossos cabeças. Desde que comecei a desempenhar meu papel de classe, e quero dizer classe trabalhadora, eu aprendi uma coisa ou outra. Aprendi um pouco sobre mim mesmo, acima de tudo. Acho que sempre vou ser assim. Difícil mudar esse ponto de vista autocentrado. 


Mas, no fim das contas, sou grato. Grato por toda a interação humana que tenho que vivenciar todos os dias. Bukowski odiava os outros e estava melhor sozinho. Eu estou melhor com alguém, ainda que não fale muito. Eu falo muito sobre o velho Buk, né? Deve ser porque é o cara que eu mais leio enquanto dou minhas cagadas diárias. Não sou um grande leitor. Mas meu intestino o é. Escatologias a parte, acho que estou no meu auge. 32 anos. Quase a idade de cristo. Quem saberá dizer como serão os próximos 365 dias? Passei por poucas e boas merdas na juventude. Sou quase um homem de meia-idade agora. Um homem, apesar de toda a garoteagem que desempenho todos os dias. Se eu pedisse um conselho a John Lennon, ele provavelmente diria, se fosse vivo, "diga à garota que você gosta o quanto você gosta dela". Eu pulei essa etapa na adolescência. Fui direto pra Depressão. E de quê me serviu? Perdi a virgindade aos 17 com uma garota maravilhosa, apesar de fora dos padrões de beleza. Fui um tolo em relação a isso, e não valorizei a troca e a conexão com ela como deveria ter valorizado. Nunca me achei bom o suficiente.


 Sempre estive diminuído por algo que dizia que eu deveria ser muito melhor do que realmente sou. Quando, na verdade, eu só posso ser quem realmente sou. Óbvio. Mas, na minha mente deprimida, eu sou nada. Não é verdade. Eu sou algo. Eu estou aqui. E vou lutar para viver.  



domingo, 21 de abril de 2024

I fall in love too easily.

 Três e meia da manhã. Saí para comprar uísque na conveniência do posto de gasolina mais próximo. 32 anos e morando com meus pais. Trabalhando num emprego de merda. Esse é o cenário que a vida reserva pra mim no auge do século XXI. Digo auge, porque muito provavelmente a  humanidade só irá ladeira a baixo a partir daqui. Mas que merda. Caralho, eu não sou ninguém. Não sei conversar com ninguém. Não sei agradar meus interesses afetivos. Sou um merda. E é isso que me sobra. Encher a cara de destilado vagabundo às 4 da manhã. Não sou muito diferente desse meu ex-colega de trabalho, Victor. Foi demitido por faltar demais. Estava sempre de ressaca e bebia como um Opala velho. Pelo menos não tenho filhos. Não dei essa oportunidade de decepcionar alguma prole nesse mundo escroto. Gente demais nesse planeta. Pra quê colocar mais ser humano nessa loucura? Um dos meus melhores amigos, Henrique, diz que está muito satisfeito com sua família, com seu filho e esposa. Eu estou feliz por ele. Mas nunca seguiria o mesmo caminho. Talvez eu deva virar mendigo. Talvez eu deva abandonar todos meus vícios e virar um Monge budista no mosteiro de Pirenópolis. Nada é real. Nada faz sentido. Pra quê perseguir uma vida plena? Não há plenitude. Tudo isso é só um teatro.  Uma sociedade que vive de aparências só tem isso: Uma casca frágil e sem resistência. Que quebra no primeiro baque de realidade. 

Mas porquê essa fossa toda? 


Provavelmente porque fui rejeitado amorosamente por ela. Admirar alguém com as profundezas de sua alma e ser recusado até das migalhas de interesse e afeto pode levar um homem a loucura. "It's always about a girl, even when It's not". Pedro Reis é o maior pensador desse século, e as frases do Juvenillia Café ainda ecoam na minha mente. Mas foda-se. Eu já deveria ter me acostumado. Chet Baker se apaixonava fácil demais, assim como eu. Deu no que deu. Morreu cedo demais e amargurado. "Você fala mal dos Emos, mas age como um o tempo todo" me disse André uma vez em 2006. Ou algo assim. Porra. Ser sensível demais é uma bosta. Às vezes eu só queria ser um macho escroto, coçar o saco e cuspir no chão sem preocupações. De que me serve estar sempre com os sentimentos frágeis? De nada. De porra absolutamente nenhuma. É só um obstáculo. Um impedimento para agir e viver. Estou sempre paralisado. E nem sei bem o porquê.


Aqui estou ouvindo The Doors. Impossível não ouvir a voz de Jim Morrison e não lembra do meu gato, Jim. Meu finado gato Jim. Ele teve uma vida plena, mas eu sentia um pouco da melancolia dele. Abandonado, sem nunca ter mamado da mãe muito provavelmente, Jim era um pouco triste de se ver. Na velhice, ele já estava debilitado. Na juventude, não parecia se encaixar nos estereótipos felinos de forma alguma. Era um estranho, um forasteiro no mundo animal. E talvez por isso, eu me enxergasse tanto nele. Não pertenço a esse corpo. Não pertenço à existência. Eu queria ser o vazio. Eu queria ser o Nada. Mas aqui estou, vivo. É como uma maldição. A vida é uma prisão? Talvez eu esteja pessimista demais. Foda-se. Acho que estar triste é estar vivo. Viver é sofrer. Pelo menos estou sentindo algo. O nada e o vazio não me proporcionaria nada disso. Pensando por esse lado, acho que posso ser grato a minha existência. Tudo passa, eu acho. Isso também vai passar. Vou estar aqui amanhã. E no dia seguinte. E pouco vai importar o pé-na-bunda. Quantos anos tenho pela frente? Se meu coração hipertenso aguentar, diria que seriam mais uns 60 anos. Isso é mais do que eu tenho de vida. Ainda vou me foder muito, demais, nessa vida. E no fim das contas, esse texto será só mais uma lembrança bonitinha de tempos mais juvenis registradas neste blog. 


Levanto da minha cadeira e acendo um cigarro. Dou uma pausa nesse vômito de pensamentos. Eu sentei aqui pensando em contar uma Estória. Algo mais narrativo do que isso. Mas é disto que estou cheio: De mim mesmo. É disso que estou sempre cheio: Dos meus problemas e frustrações. 


Agora são 5 da manhã. Logo o dia vai raiar. E eu vou ter que vestir minha máscara de "está-tudo-bem". Eu trabalho amanhã. Vou dormir pouco e acordar exausto. Vou cochilar até os últimos minutos e pegar uma carona com papai até o trampo. Como se eu ainda tivesse 13 anos e precisasse ir para a Escola. É isso que me resta. Ser quem eu sou. Não preciso esconder isso de ninguém. Eu só estaria fugindo de mim mesmo. 

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

No banco de Réu (2)

A grande questão é que, daqui pra frente, vou ter que fazer exatamente aquilo que nunca me interessou muito: Praticar, repetir, progredir e aprender. Praticar cuidar da minha saúde, repetir os novos hábitos que me propus a ter.  Progredir nessa vida adulta e aprender tudo aquilo que, antes, eu julguei desnecessário. Durante muito tempo eu acreditei que deveria seguir o caminho do artista. Ter grandes ideias e criar em cima delas. Eu ainda as tenho, e realizo minhas criações dentro dos meus padrões de estética. Mas acho que só isso não é suficiente. Deve haver mais para essa vida que nos foi reservada. Eu simplesmente cansei de fazer esses bicos de produção musical e receber tão pouco por isso. Aumentei consideravelmente meu preço mínimo dos 2 sites de freelance que integrei uns 3 anos atrás. Agora poucos me procuram, e quase ninguém fecha algum negócio. Não acho que minha música possa ser precificada. No entanto, minha disposição física, mental e o pouco de juventude que me resta me parecem ser bens muito valiosos. Acho que o Serviço Público é o menos pior de se realizar nessas condições. Não sou muito fã do caos que se passa na iniciativa privada. Quero dizer que a estabilidade, saber que não vou ser demitido do nada, me agrada.

Seria bom ser remunerado para fazer o que gosto sem me preocupar com o futuro? Claro. Mas quais as chances disso realmente acontecer? Quando adolescente, talvez até o início da vida adulta, eu acreditava que tudo que eu precisava estava em minhas mãos. E nas minhas mãos, na maior parte do tempo, estava uma guitarra. Comecei a produzir música no meu quarto do jeito mais 'Do It Yourself' o possível, e até hoje eu gosto do resultado tosco que eu cheguei naquele tempo. Eu tinha 25 anos quando lancei meu primeiro "Álbum". Digo álbum entre aspas porque estava longe, muito longe de ter uma qualidade fonográfica aceitável. Não faria sentido nenhum subir aquelas músicas no Spotify, por exemplo. Eu já fiz isso uma vez, quando já estava mais experiente e sabia uma coisa ou outra sobre produção. Mas, ainda assim, aquelas primeiras músicas, feitas no quarto na antiga casa em Belém me tocam de um jeito carinhoso que nem sei explicar. 

Completamente distante do que os grandes artistas já haviam feito aos 25 anos. Com 27 a maioria deles já estavam mortos. Acho que estou no lucro, se parar pra pensar assim. Eu tive sucesso em comunicar o que fazia sentido pra mim sonoramente naquele momento. E isso, de fato, não tem dinheiro no mundo que compre.

Mas é preciso pagar as contas. Ir ao supermercado. Pagar o plano de saúde. Financiar um carro. Pagar o IPTU, fazer revisão no veículo. Comprar remédios. Pagar o condomínio. Declarar Imposto de Renda. Etc, etc...

Diabos, eu não faço nada disso. Estou na asa dos meus pais até hoje. E tenho 31 anos. Eu sinto um tanto de vergonha quando me pego me analisando por esses termos. Não quero ser essa pessoa mais. Não quero estar nessa pele aos 40. Mas será que querer é suficiente?


A mudança só vem para os que se comprometem com os pequenos atos. 


Lutar contra si mesmo nas pequenas ações pode ser uma tarefa Hercúlea. Se dedicar dia sim e dia também a um objetivo distante, porém alcançável, é maior do que a queda de um Titã. Confesso que ainda não consegui internalizar isto. Acho que começar a escrever todos os dias, sem falta, antes que a meia noite se apresente, pode ser um exercício inicial para este modus operandi. No fim das contas, a única pessoa que estou enganando é a mim mesmo. Não vou na academia a dois dias. Eu posso ficar me sentindo mal por isso, ou simplesmente ir até lá nos próximos dias. Encontrar esse ritmo. Esse impulso, este ímpeto.  E me manter com essa força, essa inércia. É isso que irá transformar a minha realidade.

Vencer a Resistência. Por Resistência me refiro àquela voz que me diz para adiar aquilo que deve ser feito. Ela é constante, e insistente na minha personalidade. Não sei desde quando isso se dá, mas é provável que minha tendência a estar em um estado dormente tenha se iniciado no fim da infância, começo da adolescência. Para não me machucar, comecei a simplesmente não sentir absolutamente nada. Esse vazio corroeu tudo ao seu redor, inclusive minha sanidade. Mas isso está no passado agora. Me sinto muito mais centrado hoje em dia. Mas ainda assim, preciso vencer a Resistência. Esse é meu grande Trabalho. É isso que vai ditar meu caminhar daqui pra frente. E só eu posso garantir isso para mim mesmo.

Passei uma grande parte do início da adolescência me sentindo um Lixo. Quando tinha 13 anos, sofri episódios de bullying na escola que frequentava. É difícil falar sobre isso, e corro o risco de parecer pedante e monótono ao fazer-lo. Mas tudo gira em torno da figura de Gabriel Castro. Esse moleque me infernizava e virava aqueles que eu considerava amigos, contra mim. Eu só conseguia me sentir um fraco, um nada. algo errado. Na único vez que eu tive a chance de dar um belo soco na cara desse indivíduo, eu também falhei. Me pus a chorar no meio do recreio. Eu nunca acreditei na violência como meio e nunca me vi desempenhando esse papel. "Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere", disse um velho Sábio. Não sei o quanto minhas lágrimas perfumaram Castro. Provavelmente porra nenhuma.

Só sei que esse ano de 2005 foi crucial para mim. Ele ditou toda minha autoestima e me fez me enxergar como um pedaço de bosta que anda. 

Muito duro comigo mesmo? Talvez. Mas acho que a distância que o tempo conferiu a essas situações me trouxe qualquer tipo de sabedoria. Sim, eu ainda me vejo sob uma ótica deturpada de inferioridade. Mas, com tanto tempo que se passou desses traumas, acho que posso estar em paz com a situação toda. Eu estou vivo, estou aqui. Ainda sou capaz de amar e de sentir. Isso que importa. Esse mundo é caótico e injusto. Viver pode ser um castigo, e a existência é uma prisão na maior parte do tempo. Mas precisa ser assim? Outro grande sábio teria dito que o problema nunca é o problema, mas a sua reação diante ao problema. Estar vivo é uma tarefa que desprende de um imenso gasto energético. Talvez não seja a dádiva e a bênção que a maioria dos místicos querem nos fazer crer. Mas estar vivo continua sendo um milagre ao meu ver. O poder de transformação que todo ser vivo desempenha é de fato incrível. Ainda que seja apenas transformar oxigênio em gás carbônico. A respiração é a base da meditação, e a meditação é o caminho para a iluminação, certo? Talvez não tão simples assim, mas eu gosto de simplificar as coisas para melhor desempenhá-las e compreende-las. 





domingo, 24 de setembro de 2023

No banco de Réu

Sempre me considerei um músico. Apesar de não ser daqueles fascinados por teoria musical. Tampouco aqueles que estudam seus instrumentos 10 horas por dia. Praticar, repetir, progredir, aprender. Nada disso nunca me agradou. Eu sempre gostei de compor coisas originais. Mas minhas técnicas de composição sempre foram limitadas apenas por meu gosto e bom senso (?) em Música. Certo, talvez eu tivesse algum talento, mas sempre me faltou ambição. No Ensino Médio, professores certas vezes me descreviam como "vagabundo". Alguém que não primava por todo seu potencial. Estudar nunca foi um interesse genuíno para mim. Isso deixava meus pais malucos, pois minha "única obrigação é estudar"! Sempre tive conforto nessa vida e ainda o tenho. Mas nunca foi fruto do meu Trabalho. Certo, volta e meia consigo um freelance para compor trilhas sonoras de Videogames (outra paixão minha), mas nunca me rende mais do que uns 40 dólares a cada três meses, por alto. Esses bicos começaram quando resolvi aliar meu gosto por jogos com a fascinação por música. Tentei a faculdade de Desenvolvimento de Jogos Digitais. E como todos os outro cursos superiores que prestei, falhei em me formar. Mas conheci pessoas  e vivi coisas interessantes. E tornei esse meu ofício mais eficiente. Meus fonogramas já não soam tão amadores assim, e conseguem agradar clientes aleatórios de outras partes do mundo. Se isso é o suficiente para ser bem sucedido nessa sociedade monetarista, isso é outra história...

Dinheiro. Dinheiro sempre foi um problema. E uma tentação. Sou da opinião de que dinheiro não deveria existir para a sociedade funcionar de maneira justa. Mas quando tenho dinheiro nas mãos, não hesito em gastá-lo para obter fetiches de consumo. Contraditório, como tudo que é humano. Não que eu seja um gastador compulsivo, até porque não tenho fundos para tal, mas não penso no dinheiro enquanto investimento. Seria um péssimo empreendedor. Dinheiro é um meio e não um fim. Se é isso que eles querem, que peguem o meu. E me deem minhas tranqueiras. Meu fone de ouvido para trabalhar nas minhas músicas. Meu mixer de DJ para aprender a tocar em festas, se necessário. Minha placa de vídeo nova para o meu computador, que já está lutando para rodar os jogos dessa geração. A infinidade de Games que eu compro e nunca termino. O dinheiro é um obstáculo para todas essas coisas. Eu o odeio. Eu o desejo veementemente.

Mas não só nessas questões estritamente pessoais, e pra não dizer egoístas. Dinheiro, ou a falta dele, também me impede de pensar no longo prazo. Não consigo ver meu futuro ao lado de um relacionamento afetivo. Como eu vou sair com uma mulher se não consigo nem pagar um café? Sei que não deve ser tão duro assim, e deve haver pessoas na mesma situação que eu. Mas seria confortável ter uma certa independência financeira. Seria bom ter um apartamento só meu, talvez um carro. Um lugar para ir todas as manhãs, um emprego. E é aí que começa a minha empreitada.

Sempre vou ser um artista. Mesmo que o seja apenas nos momentos de lazer. Não tenho a pretensão de monetizar a minha música. Poucas as vezes a obrigação de produzir algo me trás algum tesão no ofício. Mas, no fim das contas, se eu não quero vender a minha arte, o que sobra? Força de trabalho. E é nesse ponto que eu resolvi que quero ser Funcionário Público. Comecei a estudar pra um concurso de Banco. Carreira bancária nunca passou pela minha cabeça quando eu era criança ou adolescente. Mas quanto mais o tempo passa mas eu noto que não podemos fazer só o que ressoa com nossos sonhos e aspirações. A vida adulta também é feita de momentos em que fazemos não o que queremos, mas o que devemos fazer. Eu devo isso aos meus pais, a minha família. Ter uma estrutura nessa vida e conseguir planejar um futuro, cuidar do meu bem estar, estar equilibrado mentalmente, emocionalmente, financeiramente. Tudo isso eu preciso fazer para honrar aqueles que me trouxeram até aqui.

É engraçado. Eu sempre fui um idealista e sempre estive convencido de que não seguiria uma carreira tradicional. Não me renderia a turma dos engravatados. Eu acreditava ser um rebelde, alguém que estaria sempre contra a corrente. Mas vejo que isso, em grande parte, era só um reflexo da imaturidade, dos pensamentos ingênuos, da idealização do que deveria ser a vida de alguém "autêntico". Pra quê isso tudo? A quem eu estou querendo me afirmar dessa maneira? Porque me preocupo, ou preocupava, tanto com minha imagem de revoltado e "inconformado"? Esse preciosismo todo me privou de vivências. E eu sento aqui em frente a este computador e brinco de ser escritor. Mas pra escrever é preciso viver. Eu definitivamente deveria ler mais também, mas, viver é urgente.

Acho que o grande problema sempre foi a procrastinação. Estive muito acostumado aos prazeres imediatos, fáceis, sem esforço. Trabalhar em algo com frequência, constância e persistência sempre foi muito difícil pra mim. Sempre que vejo o lampejo de uma rotina se formando, minha tendência é abandonar, procrastinar. Mesmo nesse exato momento, estou quase me forçando a escrever em meu esforço para reverter essa mania. Comecei a me exercitar fisicamente, pois estou muito acima do peso e minha saúde e condicionamento físico não são lá essas coisas. É difícil ir com frequência à Academia. Mas, pelo menos, estou sempre acompanhando de um grande amigo meu, o Henrique. Isso ajuda a manter a rotina. Estou trabalhando aos poucos nesse problema da procrastinação. E fazer algo 5 vezes por semana, como ir à academia e  suar um tanto, já é uma grande mudança ao meu ver. O grande questão será manter. E isso também pode se aplicar à rotina de estudos para o Concurso.

Resolvi que vou estudar 4 horas por dia. Ou, pelo menos, assistir 4 horas de videoaulas por dia. Hoje foi o primeiro dia que segui esse meu novo cronograma então ainda não consigo avaliar o quanto isso está me impactando enquanto ser humano. Mas estudar, dizem, pode ser libertador. Adquirir conhecimento nunca vai ser um desperdício. Hoje, por exemplo, notei que não sou tão ruim assim em compreender a gramática da língua portuguesa e sua morfologia. Na escola eu sempre tive muita preguiça pra aprender qualquer coisa, inclusive a minha língua materna. Então é como se eu estivesse tirando um atraso de uns 15 ou 20 anos. Ou mais. E afinal, se estou tentando desempenhar este papel de escritor, ter uma relação com a língua pode ser produtivo.

Sobre escrever: Eu preciso ler. Eu leio muito pouco. Jogo muitos videogames e leio pouco. Preciso retornar ao hábito da leitura. Então decidi que vou começar pela obra de Tolkien. Pretendo ler o Silmarillion, depois O Hobbit, e então a trilogia O Senhor dos Anéis. Eu nunca terminei essa última, apesar de já ter lido o primeiro livro umas 2 ou 3 vezes. Acho que ler mais vai ser uma grande fonte de inspiração para seguir escrevendo.

Este texto está cada vez mais se parecendo com um diário. Não sei até que ponto isso é bom. Nem se interessaria a alguém ler essas coisas. Mas eu tenho esse sonho estranho de escrever o suficiente para compilar um livro. Será que essas reflexões são dignas de uma publicação? Dizem que a melhor coisa que alguém pode escrever é sobre a própria vida. Estar destrinchando aquilo que é familiar, imediato a existência, te dá uma certa autoridade e firmeza ao tratar do assunto em questão. Pelo menos é isso que penso. Minha vida não é uma aventura. Nem um romance apaixonante. Na verdade, minha vida é bem monótona. Mas o melhor e mais capacitado escritor para tratar dela sou eu mesmo.



domingo, 19 de março de 2023

Eu (parte 2)

 as vezes não sei o que quero fazer
as vezes não sei como deveria viver
minha psicóloga fala em aprender a servir
claro que ela tem razão, eu não deveria ser tão

autocentrado. Talvez, por mais pessimista que eu seja, em relação a mim mesmo, eu me coloco no centro
 
e distorço a verdade à minha imagem e semelhança.

faz muito tempo que não escrevo nada. Sempre achei que escrevo melhor bêbado. Isso que dá ler bukowski e nunca mais parar.
Mas eu tô parando.... aos poucos.

A luz lá fora dá vida às cores. O verde das palmeiras. O cinza do asfalto. A sensação de ter a vida breve passando em instantes efêmeros. A vida, dizem, é uma experiência curta. Não acredito nisso. A vida é longa. E passa na velocidade que tem que passar.

Existir é um mero acaso. Será isso verdade? Que seja. Eu gosto de estar aqui. Digitando palavras soltas numa nota auto-adesiva. Eu sigo refletindo sobre minha própria existência. Como um trompetista improvisando um jazz numa noite quente. Como Chet Baker instrospectivo lamentando sua última namorada.

Eu posso, e devo, amar meu semelhante. Eu deveria encontrar uma mulher a quem pudesse servir e amar. Eu deveria ser um servo do desejo alheio, para convencer meu egoísmo da sua insignificância. Eu deveria resignificar toda a forma de se encarar. Não é uma fuga. Fugir de si mesmo é a coisa mais burra. E ao mesmo tempo intuitiva. Que alguém nascido 1992 poderia fazer.

Eu acredito no coletivo. Eu aprendi o socialismo dando voltas no mundo. No "meu" mundo. Ninguém me forçou a pensar do jeito que penso. Ninguém me forçou a vender minha força de trabalho. Eu só quero estar em paz. No lugar onde nasci. Nesse país desigual. Nesse Distrito preso em si. Eu quero acreditar. No potencial de bondade de todas as pessoas. Eu sou inocente, pois dou uma chance ao pior dos bandidos. Porque olho nos olhos deles e penso "ok", "ele vai levar meu celular", "mas talvez consiga mudar sua existência material nesse mundo competitivo e insano", "eu não mereço esse aparelho de qualquer forma".

O mais bondoso dos deuses não merece a humanidade. Não tem nada de bonito em estar desesperado. Mas o Redentor perdoa seus irmãos, humanos. Pois Consciência é isso. É ser misericordioso com todos os seres.

Eu não quero me colocar no centro, como fiz um tempo atrás. Eu não quero ser o início - e o fim - do mundo. Eu só quero ser David. E estar pronto pra próxima segunda-feira.

Eu posso - e vou - viver essa vida adulta. Eu nunca quis envelhecer. Mas não depende de mim. Estou vivo. Estou aqui. E vou seguir.

Seguir escrevendo sob títulos definitivos.

Agradeço a todos os amigos que estão aqui.