A grande questão é que, daqui pra frente, vou ter que fazer exatamente aquilo que nunca me interessou muito: Praticar, repetir, progredir e aprender. Praticar cuidar da minha saúde, repetir os novos hábitos que me propus a ter. Progredir nessa vida adulta e aprender tudo aquilo que, antes, eu julguei desnecessário. Durante muito tempo eu acreditei que deveria seguir o caminho do artista. Ter grandes ideias e criar em cima delas. Eu ainda as tenho, e realizo minhas criações dentro dos meus padrões de estética. Mas acho que só isso não é suficiente. Deve haver mais para essa vida que nos foi reservada. Eu simplesmente cansei de fazer esses bicos de produção musical e receber tão pouco por isso. Aumentei consideravelmente meu preço mínimo dos 2 sites de freelance que integrei uns 3 anos atrás. Agora poucos me procuram, e quase ninguém fecha algum negócio. Não acho que minha música possa ser precificada. No entanto, minha disposição física, mental e o pouco de juventude que me resta me parecem ser bens muito valiosos. Acho que o Serviço Público é o menos pior de se realizar nessas condições. Não sou muito fã do caos que se passa na iniciativa privada. Quero dizer que a estabilidade, saber que não vou ser demitido do nada, me agrada.
Seria bom ser remunerado para fazer o que gosto sem me preocupar com o futuro? Claro. Mas quais as chances disso realmente acontecer? Quando adolescente, talvez até o início da vida adulta, eu acreditava que tudo que eu precisava estava em minhas mãos. E nas minhas mãos, na maior parte do tempo, estava uma guitarra. Comecei a produzir música no meu quarto do jeito mais 'Do It Yourself' o possível, e até hoje eu gosto do resultado tosco que eu cheguei naquele tempo. Eu tinha 25 anos quando lancei meu primeiro "Álbum". Digo álbum entre aspas porque estava longe, muito longe de ter uma qualidade fonográfica aceitável. Não faria sentido nenhum subir aquelas músicas no Spotify, por exemplo. Eu já fiz isso uma vez, quando já estava mais experiente e sabia uma coisa ou outra sobre produção. Mas, ainda assim, aquelas primeiras músicas, feitas no quarto na antiga casa em Belém me tocam de um jeito carinhoso que nem sei explicar.
Completamente distante do que os grandes artistas já haviam feito aos 25 anos. Com 27 a maioria deles já estavam mortos. Acho que estou no lucro, se parar pra pensar assim. Eu tive sucesso em comunicar o que fazia sentido pra mim sonoramente naquele momento. E isso, de fato, não tem dinheiro no mundo que compre.
Mas é preciso pagar as contas. Ir ao supermercado. Pagar o plano de saúde. Financiar um carro. Pagar o IPTU, fazer revisão no veículo. Comprar remédios. Pagar o condomínio. Declarar Imposto de Renda. Etc, etc...
Diabos, eu não faço nada disso. Estou na asa dos meus pais até hoje. E tenho 31 anos. Eu sinto um tanto de vergonha quando me pego me analisando por esses termos. Não quero ser essa pessoa mais. Não quero estar nessa pele aos 40. Mas será que querer é suficiente?
A mudança só vem para os que se comprometem com os pequenos atos.
Lutar contra si mesmo nas pequenas ações pode ser uma tarefa Hercúlea. Se dedicar dia sim e dia também a um objetivo distante, porém alcançável, é maior do que a queda de um Titã. Confesso que ainda não consegui internalizar isto. Acho que começar a escrever todos os dias, sem falta, antes que a meia noite se apresente, pode ser um exercício inicial para este modus operandi. No fim das contas, a única pessoa que estou enganando é a mim mesmo. Não vou na academia a dois dias. Eu posso ficar me sentindo mal por isso, ou simplesmente ir até lá nos próximos dias. Encontrar esse ritmo. Esse impulso, este ímpeto. E me manter com essa força, essa inércia. É isso que irá transformar a minha realidade.
Vencer a Resistência. Por Resistência me refiro àquela voz que me diz para adiar aquilo que deve ser feito. Ela é constante, e insistente na minha personalidade. Não sei desde quando isso se dá, mas é provável que minha tendência a estar em um estado dormente tenha se iniciado no fim da infância, começo da adolescência. Para não me machucar, comecei a simplesmente não sentir absolutamente nada. Esse vazio corroeu tudo ao seu redor, inclusive minha sanidade. Mas isso está no passado agora. Me sinto muito mais centrado hoje em dia. Mas ainda assim, preciso vencer a Resistência. Esse é meu grande Trabalho. É isso que vai ditar meu caminhar daqui pra frente. E só eu posso garantir isso para mim mesmo.
Passei uma grande parte do início da adolescência me sentindo um Lixo. Quando tinha 13 anos, sofri episódios de bullying na escola que frequentava. É difícil falar sobre isso, e corro o risco de parecer pedante e monótono ao fazer-lo. Mas tudo gira em torno da figura de Gabriel Castro. Esse moleque me infernizava e virava aqueles que eu considerava amigos, contra mim. Eu só conseguia me sentir um fraco, um nada. algo errado. Na único vez que eu tive a chance de dar um belo soco na cara desse indivíduo, eu também falhei. Me pus a chorar no meio do recreio. Eu nunca acreditei na violência como meio e nunca me vi desempenhando esse papel. "Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere", disse um velho Sábio. Não sei o quanto minhas lágrimas perfumaram Castro. Provavelmente porra nenhuma.
Só sei que esse ano de 2005 foi crucial para mim. Ele ditou toda minha autoestima e me fez me enxergar como um pedaço de bosta que anda.
Muito duro comigo mesmo? Talvez. Mas acho que a distância que o tempo conferiu a essas situações me trouxe qualquer tipo de sabedoria. Sim, eu ainda me vejo sob uma ótica deturpada de inferioridade. Mas, com tanto tempo que se passou desses traumas, acho que posso estar em paz com a situação toda. Eu estou vivo, estou aqui. Ainda sou capaz de amar e de sentir. Isso que importa. Esse mundo é caótico e injusto. Viver pode ser um castigo, e a existência é uma prisão na maior parte do tempo. Mas precisa ser assim? Outro grande sábio teria dito que o problema nunca é o problema, mas a sua reação diante ao problema. Estar vivo é uma tarefa que desprende de um imenso gasto energético. Talvez não seja a dádiva e a bênção que a maioria dos místicos querem nos fazer crer. Mas estar vivo continua sendo um milagre ao meu ver. O poder de transformação que todo ser vivo desempenha é de fato incrível. Ainda que seja apenas transformar oxigênio em gás carbônico. A respiração é a base da meditação, e a meditação é o caminho para a iluminação, certo? Talvez não tão simples assim, mas eu gosto de simplificar as coisas para melhor desempenhá-las e compreende-las.

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