Areia. Por
quilômetros e mais incansáveis quilômetros, a areia parecia ser a única coisa
que o aguardava nas razoáveis distâncias que um garoto com apenas a roupa do
corpo conseguiria percorrer, largado a própria sorte no Desolado. A única coisa
que estava lá para saudá-lo, dar as sádicas boas-vindas ao estrangeiro que
escolhera – por vontade própria, seu destino era fruto de nada além das suas
livres escolhas – exilar-se naquele país distante, era ela. Ela que mordia
aqueles pés sem rumo, esfolando-os milimetricamente a cada passada desajeitada.
Thalis andava encarando o chão, assistindo seus passos afundarem
meticulosamente no deserto, como se a paisagem estivessem tentado digeri-lo aos
poucos. Não sabia dizer quanto tempo havia se passado desde a sua queda.
Precisamente, talvez não muito mais do que trinta minutos, mas a exaustão
causada pelos raios do impiedoso Astro Solar, pelo ar arenoso e pelos furos nos
seus sapatos (um desconfortável azar), distorcia o tempo. Deu mais um passo,
incerto se estaria pronto para dar o outro, que acabou se transformando num
arrastar de pé que o deixou empacado. Parou para ofegar. Sem esperanças,
levantou a cabeça e protegeu a visão da incidência solar com a mão direita,
forçando a visão para além das ondas de calor de deformavam o horizonte,
fazendo-o serpentear em sua frente.
Viu as
montanhas. Erguiam-se íngremes, de elevações que pareciam surgir das dunas
distantes. Tão íngremes que formavam paredões em certos pontos, já em outros,
elevavam-se aos céus em finos pináculos, quase como agulhas na distância.
“Do outro lado das Montanhas, ele disse...”
Thalis tentou murmurar para si mesmo, mais pensando do que emitindo qualquer
som. Virou-se para olhar o caminho por aonde viera. A brisa quente e nada
confortável que soprava se esforçava para apagar suas pegadas. “Apagar qualquer prova da minha existência”, O
garoto concluiu. Mas havia algo lá atrás que não poderia ser soterrado tão
cedo, não sem alguns muitos meses de rigorosas tempestades de areia, algo que
ainda estaria lá depois que seu cadáver seco se afogasse na poeira do Desolado:
O Navio. A outrora imponente embarcação de madeira e aço estava naufragada lá,
em nada menos que areia, partida ao meio. A proa apontava diagonalmente para as
escassas nuvens, como se quisessem indicar ironicamente a óbvia impossibilidade
de uma chuva. O castelo da popa estava arrasado, reduzido a escombros que
exalavam uma espessa fumaça cinza, preguiçosamente. O combustível do Navio não
explodiria uma segunda vez, apenas queimaria aos poucos agora.
- Velho
inconseqüente. – Thalis resmungou com desdém, mas com uma boa pitada de
melancolia. E desespero também. – Que tipo de idiota comandaria uma embarcação
sem uma tripulação?
“E que tipo de idiota subiria em tal navio?” Pensou, logo em seguida. Se Danne
Lavoir, o falecido capitão do Navio era um inconseqüente, o que isso faria de
Thalis?
“Um tolo. E um covarde.”
