segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Ainda pensando no que fazer com isso (ou se vale a pena continuar pensando)

 A areia invadia os sapatos e esfoliava os pés de Thalis. Já conseguia sentir as bolhas que se formariam no calcanhar, nas solas, entre os dedos, nos próprios dedos... Talvez fosse a única coisa que sentia. O calor já era inerente. Já era tão intrinsecamente parte de sua existência quanto respirar. Tarefa que parecia ficar mais difícil a cada momento. 

Areia. Por quilômetros e mais incansáveis quilômetros, a areia parecia ser a única coisa que o aguardava nas razoáveis distâncias que um garoto com apenas a roupa do corpo conseguiria percorrer, largado a própria sorte no Desolado. A única coisa que estava lá para saudá-lo, dar as sádicas boas-vindas ao estrangeiro que escolhera – por vontade própria, seu destino era fruto de nada além das suas livres escolhas – exilar-se naquele país distante, era ela. Ela que mordia aqueles pés sem rumo, esfolando-os milimetricamente a cada passada desajeitada. Thalis andava encarando o chão, assistindo seus passos afundarem meticulosamente no deserto, como se a paisagem estivessem tentado digeri-lo aos poucos. Não sabia dizer quanto tempo havia se passado desde a sua queda. Precisamente, talvez não muito mais do que trinta minutos, mas a exaustão causada pelos raios do impiedoso Astro Solar, pelo ar arenoso e pelos furos nos seus sapatos (um desconfortável azar), distorcia o tempo. Deu mais um passo, incerto se estaria pronto para dar o outro, que acabou se transformando num arrastar de pé que o deixou empacado. Parou para ofegar. Sem esperanças, levantou a cabeça e protegeu a visão da incidência solar com a mão direita, forçando a visão para além das ondas de calor de deformavam o horizonte, fazendo-o serpentear em sua frente.

Viu as montanhas. Erguiam-se íngremes, de elevações que pareciam surgir das dunas distantes. Tão íngremes que formavam paredões em certos pontos, já em outros, elevavam-se aos céus em finos pináculos, quase como agulhas na distância.

Do outro lado das Montanhas, ele disse...” Thalis tentou murmurar para si mesmo, mais pensando do que emitindo qualquer som. Virou-se para olhar o caminho por aonde viera. A brisa quente e nada confortável que soprava se esforçava para apagar suas pegadas. “Apagar qualquer prova da minha existência”, O garoto concluiu. Mas havia algo lá atrás que não poderia ser soterrado tão cedo, não sem alguns muitos meses de rigorosas tempestades de areia, algo que ainda estaria lá depois que seu cadáver seco se afogasse na poeira do Desolado: O Navio. A outrora imponente embarcação de madeira e aço estava naufragada lá, em nada menos que areia, partida ao meio. A proa apontava diagonalmente para as escassas nuvens, como se quisessem indicar ironicamente a óbvia impossibilidade de uma chuva. O castelo da popa estava arrasado, reduzido a escombros que exalavam uma espessa fumaça cinza, preguiçosamente. O combustível do Navio não explodiria uma segunda vez, apenas queimaria aos poucos agora.


- Velho inconseqüente. – Thalis resmungou com desdém, mas com uma boa pitada de melancolia. E desespero também. – Que tipo de idiota comandaria uma embarcação sem uma tripulação?

E que tipo de idiota subiria em tal navio?”  Pensou, logo em seguida. Se Danne Lavoir, o falecido capitão do Navio era um inconseqüente, o que isso faria de Thalis?

Um tolo. E um covarde.”






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