Carol estava sentada no chão, ao lado do amplificador. A banda estava dando uma pausa. Era sempre assim: 20 minutos tocando, três minutos de pausa. Isso ajudava o foco. Estavam em um velho estúdio de ensaio no Sudoeste. Os equipamentos poderiam já estar meio surrados, mas o preço por hora era bom, o espaço era agradável e o técnico do estúdio era um velho amigo. Carol mordia os lábios enquanto encarava a tela do celular, que segurava com as mãos entre as pernas.
- Carol, desliga o Fuzz!
Carol não escutava seu baixista, Guilherme. Talvez ouvisse, mas não escutava. Estava distraída demais. O que realmente estava escutando era a microfonia que o pedal de distorção fazia quando os captadores da guitarra ressoavam o chiado do amplificador. Só isso e seus pensamentos ocupavam sua mente.
Guilherme atravessou a sala e pisou no interruptor do pedal de Carol. O silêncio a trouxe de volta dos seus devaneios.
- Ah...! Desculpa. Eu nem me toquei.
- Carol gosta desse barulho escroto - Disse Jorge, o baterista do trio.
- Ela gosta de imitar o Jimi Hendrix... - Sugeriu Guilherme. - Mas Ele dava um jeito de usar isso nas músicas, não pra infernizar o resto da banda!
Os dois diziam isso em tom de brincadeira. Gostavam de alfinetar a caçula do grupo. Ela geralmente entrava no espírito e respondia algo à altura. Mas estava extremamente quieta hoje.
"Que merda que eu tô fazendo?" Ela pensou
Olhou novamente a mensagem enviada. Sentiu-se envergonhada.
Abriu a conversa com Marina, uma velha amiga, e digitou:
"Eu acabei de dizer pra ele que sinto saudades. O pior é que eu nem sei se isso é verdade. Talvez eu esteja acostumada demais a voltar pra casa e encontrar ele. Talvez eu tenha medo de ficar sozinha. Eu sou ridícula. Primeiro eu digo que não aguento mais o cara, e depois vou lá e imploro pra ele não me odiar, e que eu sinto a falta dele. Puta merda."
Guilherme e Jorge sabiam do ocorrido, mas acharam melhor não comentar nada. A guitarrista tinha dando um pé na bunda do namorado e estava meio melancólica. Quando perguntaram, casualmente, se estava tudo bem, ela disse que sim. Resolveram não insistir. Remoer essas coisas pode atrapalhar a dinâmica dos ensaios.
Marina respondeu:
"Olha, até onde eu sei, o cara não tava nem aí pra nada. Você chegava em casa e ele tava lá de cuecas, completamente bêbado e com bafo de cigarro. Não conseguia nem transar direto. Você queria conversar e ele vivia distante. Você chamava ele pra fazer alguma coisa e ele sempre tinha que "trabalhar no livro". O que era só mais uma desculpa pra ficar em casa e beber. Pra começo de conversa, eu nem sei como você aguentou sei lá quantos anos disso. Se ele responder alguma coisa, ignora. Você precisa de um tempo sozinha."
Carol leu aquilo e teve sentimentos contraditórios. Em parte, ela tinha razão. Julio vivia distante à tudo. Mas talvez Marina estivesse sendo rígida demais. No entanto, tudo o que ela disse foi em base de reclamações que a própria Carol tinha feito algumas semanas antes. Mas isso era um lado da história. Marina pintava Julio como um completo babaca. Mas ele também era um grande amigo. Era compreensivo. Apoiava as escolhas de Carol. Nos últimos tempos, eles mal saíam juntos, é verdade. Mas Julio nunca a impediu de sair sozinha, sem hora pra voltar. Nunca foi um cara ciumento. Ele definitivamente tinha um problema com álcool. Mas nunca foi um bêbado perigoso. Poderia ir de exageradamente alegre para excessivamente depressivo. Mas nunca ficava violento.
Mas talvez precisasse mesmo de um tempo sozinha, afinal. Julio podia ser um porto seguro em muitos sentidos. Mas será que é correto contar com a permanência de certas coisas?
Guilherme tirou o celular do bolso e olhou a hora.
- Três minutos. Vamos pra próxima?
Jorge fez uma virada energética na bateria.
- Tô pronto.
Carol continuou sentada.
- Ei, Vaughan! É pra hoje?
Ela guardou o celular e se levantou.
- Sim. Vamos nessa.
Carol equipou a guitarra. Guilherme pegou o baixo. Jorge fez a contagem nas baquetas.
Começaram.
Look On de John Frusciante começou a ecoar pelo estúdio.
Muitas coisas começaram a passar pela cabeça da guitarrista ao mesmo tempo. Ela adorava a letra dessa música em particular, e talvez não tivesse muito a ver com o que ela estava vivendo no exato momento, mas, de alguma forma, era como se a música estivesse falando com ela.
Carol cantava com sua alma.
'I can't get through.
Knots in my mind
I resent.
The self I cant find.'
I can't get through...
A paper and a pencil
Are the best friends I've got
I went to downtown L.A.
Got picked up by the cops
I didn't get what I wanted
But I didn't care a lot
I saw that life was kidding
Look on! Look on! Look on...
(...)
I'm bad luck...
I'm bad luck.
I used to feel a lot.
Things used to be alright
So much was going on. I'm empty now inside.
When I thought life was terrible
Things where going fine
Vincent calls it a set up.....
Look On! Look On! Look On!'
E começou a solar com o coração.
Uma lágrima escorreu pelas bochechas dela. Jorge percebeu. Não se tocou na hora o que realmente poderia ter causado aquilo, mas achou algo fascinante. Uma musicista colocando toda sua essência em uma música pode ser a razão de uma lágrima, afinal.
O último acorde soou. Carol estava realmente chorando de forma contida à essa altura. Abaixou a cabeça.
"Que merda" pensou.
"Aqui estou eu, chorando no meio da porra do ensaio, como uma idiota. Chorando por alguém que deve estar completamente bêbado e pouco se fodendo pra mim à essa hora....."
- Tá chorando, Carol!? - Guilherme parecia surpreso. Sabia que isso era sobre Julio. Teve o impulso de ir lá e abraça-la, mas se conteve.
Ela levantou a mão.
- Essa letra, cara.... É muito triste.
Era uma desculpa razoável. Era a primeira vez que tocavam essa música juntos. Mas carol nunca foi de chorar por pouca coisa. Eles sabiam. Ela sabia.
Não falaram mais nisso.
O ensaio prosseguiu normalmente. Tocaram todo seu repertório de covers. Estavam afiados para a próxima apresentação.
Guilherme ia encontrar os amigos em um bar. Chamou os dois. Jorge recusou. Disse que deveria ir para casa dormir. Precisava dar aula no dia seguinte.
Carol pensou por um instante.
- Não.... acho que eu tomaria uma cerveja agora, mas estou cansada. Acho que vou pra casa.
- Tudo bem. Se cuida!
Se abraçaram, e ela caminhou em direção ao carro.
Sentiu o celular vibrar. Era uma mensagem. Dele.
"Eu também sinto sua falta. Sinto falta de conversar com você. Eu fui um idiota nos últimos tempos. Se você quiser conversar, pode me chamar. Eu estou livre a semana toda.Você sabe disso. Odiar é uma verbo forte de mais."
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
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