Tornei-me um ébrio
E na bebida busco esquecer
Aquele ingrata que eu amava
E que me abandonou
Levantei da cama, fui até a pia e lavei a cara. Me pergunto, olhando no espelho, se meu reflexo sente as mesmas coisas que eu. Acho que não. Lembrei que tenho que ir pro trabalho. Fui à cozinha e comecei a preparar o café. Pensei na vida e na inevitabilidade da morte.
“Um dia vou morrer”, disse em voz alta.
Ouço uma voz cantarolando uma melodia no andar de cima. É minha vizinha gostosa ensaiando pra banda de Ska em que ela canta. Vou até a janela e abro as cortinas. Na minha melhor voz de ressaca, começo a cantar bem alto:
“Tua voz me traz lembranças
De dias melhores
Da minha juventude miserável
Onde nada mais me importava
A não ser os olhos da minha amada”
De dias melhores
Da minha juventude miserável
Onde nada mais me importava
A não ser os olhos da minha amada”
Ouço uma risada sincera. Por onde anda minha juventude miserável agora? Talvez nas garrafas vazias em cima da mesa. A vida nada mais é do que uma sucessão de fracassos e derrotas. Penso em me matar novamente. A voz celestial do andar de cima volta a cantar, sempre em ritmo de Ska:
“Tua juventude
Não me parece tão distante
Tua voz tão áspera
Mostra uma ternura
E nunca é tarde demais
Para se ser jovem”
Não me parece tão distante
Tua voz tão áspera
Mostra uma ternura
E nunca é tarde demais
Para se ser jovem”
Balanço a cabeça nervosamente. Isso precisa parar. Vou até a porta num ímpeto, determinado a ir até esse bendito andar de cima. Subo as escadas, decidido, e bato em sua porta.
“Quem é?”, ela pergunta.
“Sou eu, seu vizinho de baixo.”
“Vá embora!”, ela diz, com medo.
“Sou eu, seu vizinho de baixo.”
“Vá embora!”, ela diz, com medo.
Eu hesito por um momento. Que diabos eu tô fazendo? Fecho os olhos com força. No fundo, não fazemos nada além daquilo que precisamos. Bato de novo na porta.
“Preciso falar com você.”
“Sobre o quê?”, ela pergunta, vacilante.
“Eu não sei”, respondo.
“Sobre o quê?”, ela pergunta, vacilante.
“Eu não sei”, respondo.
Ela abre a porta e percebe que estou nervoso. Ela ri e me convida para entrar. A casa dela é incrivelmente limpa. Entro e fico parado no meio da sala, até que ela me convida para sentar. Vacilante, me sento num sofá verde-limão.
“Aceita um café?”, ela pergunta.
Não tenho certeza, mas respondo que sim, porque parece certo. Ela ri novamente e vai preparar o café. Fico observando seus movimentos na cozinha.
“Você faz o quê mesmo?”, ela grita de lá.
“Sou coveiro”, respondo.
“Que mórbido”, ela diz. “Quer dizer, desculpa.”
“Não, eu concordo, é totalmente mórbido.”
“Você ou o trabalho?”
“Sou coveiro”, respondo.
“Que mórbido”, ela diz. “Quer dizer, desculpa.”
“Não, eu concordo, é totalmente mórbido.”
“Você ou o trabalho?”
Encaro o chão por um tempo e volto a olhar ao redor. Ela tem uma coleção de corujas disposta cuidadosamente sobre a estante.
“Corujas simbolizam sabedoria, né? Ou algo assim…”.
“Sim”, ela diz, meio nervosa, meio lisonjeada com a observação. “Não que eu seja sábia. Mas admiro quem é.”
“Você é sabia, mais do que eu, em muitas maneiras.”
“Como você pode saber isso? Nem nos conhecemos.”
“Todos nós nascemos sábios. E morremos ignorantes.”
“Sim”, ela diz, meio nervosa, meio lisonjeada com a observação. “Não que eu seja sábia. Mas admiro quem é.”
“Você é sabia, mais do que eu, em muitas maneiras.”
“Como você pode saber isso? Nem nos conhecemos.”
“Todos nós nascemos sábios. E morremos ignorantes.”
Um silêncio - talvez mais longo do que o normal - e ela volta com duas canecas de café. Me entrega a preta e fica com a branca. Senta ao meu lado.
“Então, você queria conversar comigo…”
“Já estamos conversando, não?”
“Era isso que você queria?”
“Já estamos conversando, não?”
“Era isso que você queria?”
Ela olha diretamente nos meus olhos e eu não faço ideia do que o seu olhar quer dizer. De repente, ela diz que vai pegar um papel e uma caneta. Ela caminha até a gaveta do hack da TV, abrindo-a. Um ninja salta de lá de dentro, soltando uma bomba de fumaça e desaparecendo em seguida.
“Que diabos foi isso?”, pergunto, atônito.
“É meu companheiro de quarto, me ajuda com o aluguel, mas desde que começou a estudar ninjustu, anda com umas manias…”
“É meu companheiro de quarto, me ajuda com o aluguel, mas desde que começou a estudar ninjustu, anda com umas manias…”
Ela senta ao meu lado e me passa o papel e a caneta.
“Escreva a primeira coisa que vier à sua mente”, ela diz.
O futuro é incerto e o fim está sempre próximo.
“Jim Morrison?”, ela pergunta.
“Jim Morrison”.
O futuro é incerto e o fim está sempre próximo.
“Jim Morrison?”, ela pergunta.
“Jim Morrison”.
Ela toma o papel e a caneta e passa um certo tempo me encarando. À essa altura todo o nervosismo há havia se dissolvido no café. Ela escreve algo e me devolve o papel. Um tanto mais seguro, leio em voz alta: “nos próximos minutos do seu futuro, o que você deseja que aconteça?”.
“Sexo”, eu respondo.
Ela encara o papel e morde os lábios.
“Pensava que você seria mais original do que isso”, ela diz, visivelmente decepcionada.
“E você? O que você quer?”, eu pergunto.
“Sair daqui.”
“E você? O que você quer?”, eu pergunto.
“Sair daqui.”
Ela se levanta e vai em direção à porta, agarrando um casaco. O casaco parece vesti-la. Ela olha para trás.
“Você não vem?”.
Eu me levanto num salto. Sigo ela porta afora, novamente nervoso, lembrando do meu trabalho. Saímos.
“Desculpa, mas não sei o seu nome.”
“Atena”, ela responde.
“Atena… Nome bonito.”
“Obrigada.”
“Olha, desculpe… Eu não queria soar como um idiota. Mas eu faço isso. Eu destruo as coisas. Acabo com as expectativas.”
“Eu não tinha nenhuma expectativa sobre você, então tá tudo bem. Você devia tentar.”
“Fazer ficar tudo bem?”
“Não ter expectativas.”
“Atena”, ela responde.
“Atena… Nome bonito.”
“Obrigada.”
“Olha, desculpe… Eu não queria soar como um idiota. Mas eu faço isso. Eu destruo as coisas. Acabo com as expectativas.”
“Eu não tinha nenhuma expectativa sobre você, então tá tudo bem. Você devia tentar.”
“Fazer ficar tudo bem?”
“Não ter expectativas.”
Acompanhei seus passos escada abaixo. Tentei imaginar o que ela diria em seguida. Na verdade…
“Acho o silêncio mais confortável.”
“Hm?”
“Desculpa, acabei pensando alto.”
“Você pede desculpas demais”, ela parecia aborrecida.
“Hm?”
“Desculpa, acabei pensando alto.”
“Você pede desculpas demais”, ela parecia aborrecida.
Chegamos até o térreo. Ela parou um instante e se virou para mim. Fitou meus olhos pelo que pareceu uma eternidade.
“E agora?”, perguntou.
