sexta-feira, 24 de junho de 2016

Dança do Coveiro

Escrito à 3 mãos por R.D.G.  em 19/06/16



Tornei-me um ébrio
E na bebida busco esquecer
Aquele ingrata que eu amava
E que me abandonou

Levantei da cama, fui até a pia e lavei a cara. Me pergunto, olhando no espelho, se meu reflexo sente as mesmas coisas que eu. Acho que não. Lembrei que tenho que ir pro trabalho. Fui à cozinha e comecei a preparar o café. Pensei na vida e na inevitabilidade da morte.
Um dia vou morrer”, disse em voz alta.
Ouço uma voz cantarolando uma melodia no andar de cima. É minha vizinha gostosa ensaiando pra banda de Ska em que ela canta. Vou até a janela e abro as cortinas. Na minha melhor voz de ressaca, começo a cantar bem alto:
Tua voz me traz lembranças
De dias melhores
Da minha juventude miserável
Onde nada mais me importava
A não ser os olhos da minha amada
Ouço uma risada sincera. Por onde anda minha juventude miserável agora? Talvez nas garrafas vazias em cima da mesa. A vida nada mais é do que uma sucessão de fracassos e derrotas. Penso em me matar novamente. A voz celestial do andar de cima volta a cantar, sempre em ritmo de Ska:
Tua juventude
Não me parece tão distante
Tua voz tão áspera
Mostra uma ternura
E nunca é tarde demais
Para se ser jovem
Balanço a cabeça nervosamente. Isso precisa parar. Vou até a porta num ímpeto, determinado a ir até esse bendito andar de cima. Subo as escadas, decidido, e bato em sua porta.
Quem é?”, ela pergunta.
Sou eu, seu vizinho de baixo.
Vá embora!”, ela diz, com medo.
Eu hesito por um momento. Que diabos eu tô fazendo? Fecho os olhos com força. No fundo, não fazemos nada além daquilo que precisamos. Bato de novo na porta.
Preciso falar com você.
Sobre o quê?”, ela pergunta, vacilante.
Eu não sei”, respondo.
Ela abre a porta e percebe que estou nervoso. Ela ri e me convida para entrar. A casa dela é incrivelmente limpa. Entro e fico parado no meio da sala, até que ela me convida para sentar. Vacilante, me sento num sofá verde-limão.
Aceita um café?”, ela pergunta.
Não tenho certeza, mas respondo que sim, porque parece certo. Ela ri novamente e vai preparar o café. Fico observando seus movimentos na cozinha.
Você faz o quê mesmo?”, ela grita de lá.
Sou coveiro”, respondo.
Que mórbido”, ela diz. “Quer dizer, desculpa.
Não, eu concordo, é totalmente mórbido.
Você ou o trabalho?
Encaro o chão por um tempo e volto a olhar ao redor. Ela tem uma coleção de corujas disposta cuidadosamente sobre a estante.
Corujas simbolizam sabedoria, né? Ou algo assim…”.
Sim”, ela diz, meio nervosa, meio lisonjeada com a observação. “Não que eu seja sábia. Mas admiro quem é.
Você é sabia, mais do que eu, em muitas maneiras.
Como você pode saber isso? Nem nos conhecemos.
Todos nós nascemos sábios. E morremos ignorantes.
Um silêncio - talvez mais longo do que o normal - e ela volta com duas canecas de café. Me entrega a preta e fica com a branca. Senta ao meu lado.
Então, você queria conversar comigo…
Já estamos conversando, não?
Era isso que você queria?
Ela olha diretamente nos meus olhos e eu não faço ideia do que o seu olhar quer dizer. De repente, ela diz que vai pegar um papel e uma caneta. Ela caminha até a gaveta do hack da TV, abrindo-a. Um ninja salta de lá de dentro, soltando uma bomba de fumaça e desaparecendo em seguida.
Que diabos foi isso?”, pergunto, atônito.
É meu companheiro de quarto, me ajuda com o aluguel, mas desde que começou a estudar ninjustu, anda com umas manias…
Ela senta ao meu lado e me passa o papel e a caneta.
Escreva a primeira coisa que vier à sua mente”, ela diz.
O futuro é incerto e o fim está sempre próximo.
Jim Morrison?”, ela pergunta.
Jim Morrison”.
Ela toma o papel e a caneta e passa um certo tempo me encarando. À essa altura todo o nervosismo há havia se dissolvido no café. Ela escreve algo e me devolve o papel. Um tanto mais seguro, leio em voz alta: “nos próximos minutos do seu futuro, o que você deseja que aconteça?”.
Sexo”, eu respondo.
Ela encara o papel e morde os lábios.
Pensava que você seria mais original do que isso”, ela diz, visivelmente decepcionada.
E você? O que você quer?”, eu pergunto.
Sair daqui.
Ela se levanta e vai em direção à porta, agarrando um casaco. O casaco parece vesti-la. Ela olha para trás.
Você não vem?”.
Eu me levanto num salto. Sigo ela porta afora, novamente nervoso, lembrando do meu trabalho. Saímos.
Desculpa, mas não sei o seu nome.
Atena”, ela responde.
Atena… Nome bonito.”
Obrigada.”
Olha, desculpe… Eu não queria soar como um idiota. Mas eu faço isso. Eu destruo as coisas. Acabo com as expectativas.
Eu não tinha nenhuma expectativa sobre você, então tá tudo bem. Você devia tentar.
Fazer ficar tudo bem?
Não ter expectativas.
Acompanhei seus passos escada abaixo. Tentei imaginar o que ela diria em seguida. Na verdade…
Acho o silêncio mais confortável.
Hm?
Desculpa, acabei pensando alto.
Você pede desculpas demais”, ela parecia aborrecida.
Chegamos até o térreo. Ela parou um instante e se virou para mim. Fitou meus olhos pelo que pareceu uma eternidade.
E agora?”, perguntou.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Um sonho à tarde

Aeroporto Internacional Indira Gandhi, Nova Délhi. Fim de tarde.

Uma enxurrada de pessoas transita para dentro e para fora do aeroporto. Estou em uma fila interminável em frente a um terminal. Está quase na minha vez. Olho para trás e tenho um relance do trânsito caótico nas ruas lá fora. Carros e tuk-tuks disputam as faixas. Uma eventual vaca passa tranquilamente entre os pedestres. Tem um maluco de bigode e meio gordo com um rádio à pilha grudado no ouvido, atrás de mim. Toca uma música pop indiana um tanto quanto escandalosa, mas não deixa de ser interessante, antropologicamente falando.

Chega a minha vez. Me aproximo do balcão.

-Sim, senhor? - Chama a moça ao balcão.

- Uma passagem para Okinawa, Japão, por favor.

- Claro, senhor. Queira apresentar um documento de identidade, por favor?

Apresento. Ela olha curiosa.

- Brasileiro! Que legal. - Ela diz com um sorriso encantador

-.... hã... obrigado?

Dou uma boa olhada nela. Ela não parece uma indiana comum. Tem traços do extremo leste asiático, japonesa, talvez. Mas sua cor de pele é bem local. Claramente uma mestiça.

- A passagem é para hoje?

- Sim.

- Temos horários disponíveis a partir de 19 horas.

- Ótimo. Pode confirmar.

Ela não era nada mal. Nada mal mesmo. Gostaria de sair com ela e tomar uns drinks, dançar, cantar karaokê, andar de mãos dadas ao luar. Qualquer coisa seria bem vinda.

- Aqui está, senhor.

Pego a minha passagem com ela.

- Me responde um pergunta?

- Claro, senhor.

- Essa passagem me dá direito à sua companhia durante o vôo?

Ela me olha curiosa. Finalmente entende aquilo como uma cantada. Ela fica levemente ruborizada.

- Haha, creio que não, senhor.

- Tudo bem.

- Sempre quis conhecer Okinawa, quem sabe uma próxima vez.

- Nesse caso, estarei esperando.

- Ha ha - Ela tinha uma risada linda - ha ha ha!


Me afasto do balcão e subo em uma escada rolante. Sinto que estou com certa fome.


A cena corta para às 19:00, o embarque para Okinawa começa pelo portão 34.

A aeronave cruza o oceano índico, calmamente. Foi uma viagem tranquila.


Mais um corte. Estou saindo do avião por um dos portões de desembarque. Escuto uma voz atrás de mim.

- Senhor! Senhor!

Viro para trás e lá está a atendente de Nova Délhi. Ela trazia uma pequena mala de rodinhas.

- Como foi sua viagem, senhor?

Olho para ela e algo de estranho acontece. Não era ela. Era uma homem. Um japonês de meia idade com uma cara completamente desinteressante. Ela continua a falar com sua voz de homem:

- Okinawa é uma beleza, o senhor vai ver.

- Sim.... mas tem algo errado.

- O que?

- Isso não vai dar certo.

- O que não vai dar certo?

- Quero dizer, você é um homem!

- Oh.

- Sim. Eu não esperava por isso.


Que azar o meu. Onde estaria a garota do aeroporto?


A cena corta mais uma vez. Estou à beira da praia, em uma bar localizado em uma modesta barraca de palha. A atendente de Nova Délhi está comigo, dessa vez em sua forma de mulher, e mais uma amiga. Estamos os três bebendo caipirinhas. Feitas de vodka Absolut.

- No Brasil, fazemos com cachaça.

- Meu sonho é conhecer o Brasil! - Diz a amiga dela.

- Sou suspeito pra falar. Sempre gostei do meu país. Mas é difícil falar dele. É um país enorme.... bom, vocês provavelmente pensam em conhecer o Rio de Janeiro durante o carnaval, em fevereiro.

- Mas é claro! - Elas dizem em uníssono e caem na risada - Ha ha ha ha ha!

- Parece um bom programa, mas se querem a minha dica, deveriam conhecer a capital, Brasília. É uma coisa completamente única nesse mundo. Nunca vai haver nada igual na face da terra...

- Está com saudades de casa, senhor? - Ela pergunta, tocando o meu pulso. Eu seguro sua mão.

- Não exatamente. Estou onde eu queria estar.

Viro a caipirinha de uma vez e olho para trás. Há uma piscina termal natural logo em frente ao bar. Jovens se jogam e espalham água quente para todos os lados. Crianças correm em seus pequenos trajes de banho ao redor da piscina, rindo com graça e inocência. Okinawa. Quem diria. Eu e duas garotas.


Acordei na minha cama.


Gostaria de ter mais sonhos assim...







terça-feira, 7 de junho de 2016

Superficial

A noite é superficial
Só puta e polícia nas ruas
Quando eu era um homem de 22 anos eu amava a noite
A melhor hora para encontrar as pessoas
A melhor hora pra ficar sozinho
Beber em grupo, chapar solitário.
Muitas vezes já desejei que o alvorecer nunca chegasse

Hoje em dia não é tanto assim mais.
Não é porque eu amadureci
(sou só um garoto de 24, afinal)
Não é porque o dia é tão melhor que a noite
É porque dia, noite, entardecer
Pra mim parece ser tudo o mesmo
Todo mundo quer as mesmas coisas
Todo mundo está indo para algum lugar,
pra no final do dia fazer as mesmas coisas
Talvez um dia eu também quisesse
Ganhar dinheiro
Comprar uma casa
Constituir família
Trabalhar
Contribuir para a previdência
Viver sempre repetindo as mesmas coisas ínfimas
Até o fim da vida

Não.
Hoje em dia, não.
Eu não quero nada disso
Eu tô cagando pra esse sistema
Pode soar como coisa de adolescente revoltado
E talvez seja
E também, talvez os jovens tenham mais razão do que os velhos alienados
Deve ter outra saída
Deve ter outra solução para que dia e noite não se torne uma coisa só
Uma eterna repetição de afazeres
Que só serve para circular o dinheiro $$$
E ninguem se importa se você preferiria se mudar pra pirenópolis e plantar comida orgânica
Ninguém se importa se você gosta de fazer pão
Ninguém liga pra porra nenhuma.
Chega a noite, todos ligam a televisão
Fica por isso mesmo.
Superficial.