Nenhuma reposta.
Acordei e segui viagem para a Cidade Baixa, a Capital dos Mortos. O que é isso? Ninguém sabe. No fim estou no Fim. Acho que estou enlouquecendo. Segui viagem. Ali estava eu no Burgo Morto-Vivo. Os cadáveres decrépitos andavam desinteressados pelas esquinas, com seus olhares desvivos. Todos aqui já foram algo, um dia. Um estalajadeiro. Um ferreiro. Um guerreiro. Uma ama de leite, uma lavadeira. Uma dama da alta sociedade.
Agora eram todos sombras.
Se eu ainda tivesse olfato (poucos sentidos dos vivos me restam) eu sentiria o odor ocre das carnes em putrefação em toda parte. Mas ainda assim, creio que me acostumaria. A Cidade Baixa me abrigou quando todo o resto de misericórdia nesse mundo se apagou diante da única certeza. Meu fim. A morte.
Largado em minha cripta, lembro de acordar de supetão, e tentei - em vão - encher os pulmões com uma arfada assustada.
Soquei a tampa do caixão de madeira que se escancarou com uma facilidade questionável. Me apoiei em um cotovelo e com a outra mão e esgueirei minha cabeça fria para fora da tumba. Senti um tufo de cabelo se descolar do topo de minha cabeça.
Foi um susto grande, quando a voz esganiçada do coveiro cortou o ar atrás de mim e vibrou algo que ainda funcionava como um típano dentro de meus ouvidos:
- Saudações, neófito.
Olhei para trás e vi um cadáver de pé, com a parte esquerda da mandíbula exposta completamente esmigalhada. Como era capaz de pronunciar qualquer coisa me era ainda um mistério.
- Mas que c....
- Calma, criança. Você morreu. Sua vida chegou ao fim. Mas a não-vida está apenas no início.
Começava assim, a não-vida para mim.
(...)
O que se seguiu dali foi a coisa mais estranha. O coveiro me apresentou a um Sacerdote no topo na cripta subterrânea.
- Criança - disse o padre, nas suas vestes brancas - Qual seu nome?
- Meu.... nome?
- Sim. Em vida, seus pais te deram um nome. Qual era?
Durante uns 5 segundos, eu fiquei imóvel nos meus pensamentos. Era como se uma parte de minha memória, uma parte significativa e vital, tivesse sido roubada de mim.
- Meu nome - eu disse, por fim - meu nome é... Hemeritus.
O padre sorriu um sorriso morto.
- É um belo nome. Eméritos são todos aqueles que cumpriram seus deveres. E são dignos das mais altas honrarias.
Fiquei em silêncio. Aquilo nada significava para mim.
- No entanto Hemeritus, meu jovem neófito, você ainda há de se provar ao Clero da Cidade Baixa.
- O que quer dizer com Clero? - Eu perguntei afoito
- Todos que morrem têm uma dívida para com suas próprias almas. A morte não é o fim para nós. Mas o caminho que se segue daqui pode ser tortuoso e vicioso. Organizamos toda uma Religião em volta da Verdadeira Vocação. Aquilo que encontramos como nosso objetivo último em não-vida.
- Verdadeira Vocação? E qual seria?
O padre deu outro sorriso, dessa vez mais pontiagudo que o anterior.
- Eis um dos Mistérios da Fé.
O Sacerdote de branco se chamava Augustus. Ele me levou pela primeira vez para a Cidade Baixa. Me mostrou meu novo lar: Um Mosteiro surrado na periferia da aglomeração urbana. Uma construção de blocos enormes de pedras acinzentadas e cheias de musgos do tempo. Haviam alguns monges mortos em oração no pátio principal. Entoavam cânticos em uma língua esquecida que mais tarde eu viria a me tornar fluente. A sensação geral lá dentro era de solenidade, e humildade.
Entramos por uma pesada porta de madeira na estrutura principal do Mosteiro. Uma Lareira enorme iluminava toda a sala na extremidade dos fundos. E era apenas para isso que servia. Mortos não sentem frio. Não têm tato. O Fogo é nossa lâmpada e nada mais.
- Acomode-se. - Augustus disse, enquanto sentava-se em uma pesada cadeira de mogno. Pegou um grande livro e começou a rabiscar palavras com um pena molhada de nanquim. Vi meu nome no meio das anotações.
Sentei-me em outra cadeira, mais próxima do fogo.
- Você se lembra da sua vida passada?
Tentei pensar, mas apenas imagens desconexas me vinham a mente. Uma fazenda. Um velho e uma velha. Uma sensação de carinho. Uma noite fria. Uma sensação de terror. O gelado fio de corte de uma espada.
- Não. - respondi.
- Tudo bem. É difícil lembrar-se de detalhes nesses primeiros momentos. E, no fim das contas, as circunstancias da sua morte pouco importam.
Augustus levantou-se de sua cadeira de maneira reverente.
- Vejo que você precisa descansar.
- Mas.... eu já estou morto.
- Mortos descansam. Sua casca é frágil ainda. Precisa de tempo e práticas para ganhar seu potencial. Até lá, será durante um tempo um cadáver que anda. Precisa cuidar dessa casca morta.
Augustus abriu um pequeno alforge em seu cinto e retirou um pequeno recipiente oblongo com algum líquido dentro. Colocou em cima da mesa.
- Óleo de mirra. Espalhe esse unguento por todo seu corpo e deite-se lá em cima em alguma cama. Ajudará o processo de embalsamento. Além de ter um cheiro forte que esconde o odor de todo o necrochorume que vai se formar aí dentro, cedo ou tarde.
Peguei o frasco da mesa. Tinha uma aparência de cor de oliva.
Subi as escadarias laterais do salão principal e me dirigi aos aposentos internos. E, pela primeira vez, tive uma noite de sono morto.
Nada de muito interessante acontece no Mosteiro, geralmente. Mas, naqueles breves dias de neófito, as coisas ainda tinham algum tipo de brilho que despertavam minha curiosidade. A não-vida é muito mais longa que a vida em si. Depois de um tempo, tudo se mistura numa cinzenta névoa. Os dias são iguais. As semanas são iguais. Os anos...
É o suficiente para tudo se permanecer inerte na mesmice. Depois de anos, décadas de não-vida, eu nem me lembro mais o que é encher os pulmões de ar. Provavelmente muito me doeria faze-lo, dadas as condições dos meus alvéolos putrefatos.
Mas a luz do sol raiou morna naquele dia. Após meu primeiro sono morto. Acordei do meu transe e vi o teto encardido de madeira. De alguma forma, me senti acolhido. Ainda que a frieza da morte percorresse por minhas entranhas que apodreciam.
Eu provavelmente fedia, cheguei a essa conclusão. Ainda que não sentisse nenhum cheiro, sentia algo podre dentro de mim.
O óleo de mirra que Augustus me dera tinha um odor marcante, ou pelo menos era isso que ele tinha dito. Instintivamente abri a garrafinha e espalhei o unguento pelos meus braços e tórax. Senti que a podridão se aliviava. Encarei a torrente de luz que entrava pela única janela do cômodo. Fiquei um instante meio que meditando, ouvindo os sons da manhã (os poucos que chegavam dentro do quarto isolado em madeira), depois levantei. Me vesti. E saí porta afora.
Não havia ninguém na estrutura principal. Um silêncio cadavérico reinava lá dentro, de forma que tudo o que conseguia ouvir eram os cânticos abafados dos monges lá fora. Analisei o ambiente. A lareira ainda estava acesa, pintando o recinto com sua luz amarela. As madeiras escuras que formavam a estrutura interna meio que reluziam foscamente a luz do fogo. Me peguei pensando na minha rotina matinal quando vivo. Me lavar, me alongar e comer. Nada disso me parecia razoável agora que eu era um morto. De forma que simplesmente abri a grande e pesada porta da estrutura principal e escapei para o pátio.
Uma modesta névoa cobria todo o pátio. Toda a grama era de um verde-musgo e a áura cinzenta da luz atravessando a névoa conferia uma solenidade singular a todo o ambiente. Os 3 grandes carvalhos que cresciam irregularmente pelo terreno estavam majestosos, e pareciam sussurrar sabedorias a muito esquecidas. Era num desses que os monges sentavam, um ao lado do outro, em semicírculo. Todo o resto do ambiente era um ordenado cemitério. Cheios de lápides já preenchidas por ancestrais que, por qualquer motivo, nunca experimentaram a não-vida. Embaixo da árvore, por entre as lápides, os monges entoavam um cântico monofônico.
Me aproximei com timidez e fiquei de pé, observando.
- "Udrhea.... singalt. Nahir.... unaut."
- "Vaheli andra thot
- "Namir... Emsah got."
Outras diversas preces eram entoadas uma após a outra. Todos os monges pareciam unidos em seu transe. Estavam com os olhos acizentados, e cantavam com suavidade e paciência. Nenhum parecia fazer qualquer menção de se destacar, de divergir do ritual. Todos miravam para o mesmo nada em suas frentes. Senti-me meio nauseado. Pareciam que estavam lá desde sempre. Pareciam que estariam lá para sempre. Mais cânticos foram se arrastando em palavras estranhas, ou ainda estranhas para mim naquele momento, e seguindo uma cadência quieta até que os versos foram sendo ditos cada vez mais baixos. Cada entonação foi se parecendo mais com um susurro. Até que, de repente, estavam todos calados.
Da parte central do semicírculo, vi Augustus se levantar. Vestia um hábito simples, muito parecido com os dos demais. Mas carregava consigo um contido incensário de metal, preso por uma corrente. Os elos da corrente trilhintaram enquanto ele se levantava com calma, mas com vigor. Assim que se pôs a caminhar para o centro da roda, vi sopros esfumaçados saírem do incensário. Como se tivesse acendido sozinho. Preguiçosamente a fumaça exalava enquanto o Padre andava, segurando a corrente com a mão direita com o dedo indicador casualmente levantado. Ao chegar ao centro, virou-se para todos e deixou o incensário pender ao seu lado.
- Que o Ouro do Sol brilhe em vossos olhos. - Ele disse, com uma voz um tanto fantasmagórica.
- Que a Noite Eterna se afaste em definitivo. - Todos os outros responderam em uníssono.
Assim que a última voz parou de ecoar, todos se levantaram e, ordenadamente, começaram a se dirigir de volta para a estrutura principal, a fim de começar as rotinas de trabalho no mosteiro. Augustus continuava no centro, e observava atento a todos indo para seus postos. Nossos olhares se encontraram por um instante. Me aproximei dele.
- Vejo que conseguiu descansar - disse assim que cheguei perto.
- De alguma forma... - concluí.
Augustus sorriu de forma amena
- Venha, caminhemos um pouco. Preciso deixar algumas coisas acertadas com você.
Segui ao lado de Augustus, enquanto ele caminhava em uma pequena calçada de pedras brancas dispostas da grama verde, que levava a uma das estruturas do mosteiro.
- Aqui, trabalhamos para nossa subsistência. Todos têm uma função, que deve ser praticada com zelo e atenção.
Eu seguia calado.
- As funções não são definitivas, mas eventualmente você vai se adequar a algo mais específico.
Paramos em frente a um pomar de macieiras. As árvores cresciam saudáveis e vistosas. Vi várias maçãs nos galhos, parecendo prontas para a colheita.
- Essa é uma das funções preferidas de muitos aqui. Cuidar das macieiras. Você vê, as maçãs são o ingrediente principal da nossa Santa Cidra. Que usamos para comungar em nossas missas.
Nos aproximamos de uma pequena cabana de madeira ao lado do pomar. Augustus abriu a pequena porta da frente sem muita cerimônia. Haviam diversos barris de madeira escura armazenados, deitados até o teto, na cabana. Se aproximando de uma estante em uma parede no canto, Augustus pegou uma caneca velha de Latão. Se aproximou de um dos barris e deixou correr a pequena torneira que ali estava encaixada. Um gole tímido de líquido dourado se despejou para dentro da caneca.
Augustus me entregou a caneca com uma expressão satisfeita.
- Prove. - disse ele.
Eu peguei a bebida de sua mão. Olhei para o conteúdo. Reluzia à luz contida do sol que entrava pela porta.
Dei um gole.
Era doce, lembrando um pouco mel, mas mais suave. Modestamente saborosa, a bebida preencheu meu esôfago morto e se alojou naquilo que ainda me restava como estômago. A Cidra parecia aquecer-me as veias, e, de imediato, fui tomado por uma satisfação tranquila, como se estivesse voltado para casa depois de uma longa viagem.
-.... isso é delicioso. - Eu disse
- Claro que é. - disse Augustus depois de uma risadinha satisfeita - Produzido com muito carinho pelos monges. Um dia você vai participar da produção de alguma safra. Mas, agora, preciso que você desempenhe a última função na nossa cadeia de produção.
- O que quer dizer?
- Nós vendemos os barris excedentes para uma taberna na Cidade Baixa. Isso nos ajuda a custear nosso estilo de vida aqui no Mosteiro. Apesar de não ser nossa única fonte de renda, é de grande ajuda.
- Interessante...
- E agora, precisamos entregar essa ultima safra para a taberna novamente. Eu queria que você ficasse encarregado disso. Não se preocupe, vou designar um dos monges mais experientes para ir com você. O que me diz?
Senti que não tinha muita escolha. Eles me acolheram, e agora eu deveria retribuir.
- Tudo bem. Significa que vamos até a cidade, então.
- Exato. Passamos um bom tempo aqui dentro, mas visitar o mundo de fora ainda é necessário de vez em quando, certo? Mas poderemos cuidar disso mais tarde. Por enquanto, preciso te mostrar outras atividades realizadas por aqui.
Saímos do pequeno depósito e seguimos o caminho de pedras brancas de volta até a estrutura principal do mosteiro.
Eu viria a ficar íntimo daquele lugar, muitíssimo em breve.
(...)
Aquele dia, o dia em que realizaria minha primeira missão, foi só mais um como outro qualquer. Mas, no entanto, coisas que foram ditas e cenas que vi foram diferentes o suficiente para se destacarem pela Eternidade. Não que tenham sido coisas que me colocassem num estado de epifania, foram apenas anedotas diárias, mas, diferentes o suficiente da rotina do Mosteiro para se destacar.
Acordei do mesmo jeito que no meu primeiro sono morto: Encarando o teto.
As sensações de podridão pareciam ter arrefecido, muito provavelmente pelo uso constante do óleo de mirra que Augustus me dera. Sentei na cama, peguei a garrafinha do criado-mudo, e me besuntei mais uma vez, antes de levantar. Ouvia os monges lá fora. Resmunguei, levantei da cama e me vesti.
Desci para o salão principal. Augustus remexia na lareira com uma haste de metal longa, atiçando o fogo. Ele levantou o rosto e me encarou com o fogo refletindo em sua face morta. Sorriu placidamente.
- Ah, Hemeritus. Bem na hora.
Me aproximei dele e cruzei os braços olhando o fogo.
- Os cânticos começam bem cedo, não?
- Claro. É a primeira função de um monge ao acordar: Rezar. Falando nisso, creio que estamos prontos para lhe promover a Acólito.
- Acólito?
-Sim. Responsabilidades e regalias o aguardam, dentro destes muros. O que acha?
Vacilei um pouco. Descruzei os braços e olhei em seus olhos.
- Que escolha tenho, Augustus? Vocês me salvaram.
- Salvamos? - Ele riu. - Salvamos de quê? Você descansava muito tranquilo em sua cova.
Nada disse, apenas desviei o olhar.
Augustus aproximou-se e colocou a mão direita em meu ombro esquerdo.
- Quem vai se salvar é você mesmo, criança. - Ele disse por fim.
