quarta-feira, 22 de novembro de 2023

No banco de Réu (2)

A grande questão é que, daqui pra frente, vou ter que fazer exatamente aquilo que nunca me interessou muito: Praticar, repetir, progredir e aprender. Praticar cuidar da minha saúde, repetir os novos hábitos que me propus a ter.  Progredir nessa vida adulta e aprender tudo aquilo que, antes, eu julguei desnecessário. Durante muito tempo eu acreditei que deveria seguir o caminho do artista. Ter grandes ideias e criar em cima delas. Eu ainda as tenho, e realizo minhas criações dentro dos meus padrões de estética. Mas acho que só isso não é suficiente. Deve haver mais para essa vida que nos foi reservada. Eu simplesmente cansei de fazer esses bicos de produção musical e receber tão pouco por isso. Aumentei consideravelmente meu preço mínimo dos 2 sites de freelance que integrei uns 3 anos atrás. Agora poucos me procuram, e quase ninguém fecha algum negócio. Não acho que minha música possa ser precificada. No entanto, minha disposição física, mental e o pouco de juventude que me resta me parecem ser bens muito valiosos. Acho que o Serviço Público é o menos pior de se realizar nessas condições. Não sou muito fã do caos que se passa na iniciativa privada. Quero dizer que a estabilidade, saber que não vou ser demitido do nada, me agrada.

Seria bom ser remunerado para fazer o que gosto sem me preocupar com o futuro? Claro. Mas quais as chances disso realmente acontecer? Quando adolescente, talvez até o início da vida adulta, eu acreditava que tudo que eu precisava estava em minhas mãos. E nas minhas mãos, na maior parte do tempo, estava uma guitarra. Comecei a produzir música no meu quarto do jeito mais 'Do It Yourself' o possível, e até hoje eu gosto do resultado tosco que eu cheguei naquele tempo. Eu tinha 25 anos quando lancei meu primeiro "Álbum". Digo álbum entre aspas porque estava longe, muito longe de ter uma qualidade fonográfica aceitável. Não faria sentido nenhum subir aquelas músicas no Spotify, por exemplo. Eu já fiz isso uma vez, quando já estava mais experiente e sabia uma coisa ou outra sobre produção. Mas, ainda assim, aquelas primeiras músicas, feitas no quarto na antiga casa em Belém me tocam de um jeito carinhoso que nem sei explicar. 

Completamente distante do que os grandes artistas já haviam feito aos 25 anos. Com 27 a maioria deles já estavam mortos. Acho que estou no lucro, se parar pra pensar assim. Eu tive sucesso em comunicar o que fazia sentido pra mim sonoramente naquele momento. E isso, de fato, não tem dinheiro no mundo que compre.

Mas é preciso pagar as contas. Ir ao supermercado. Pagar o plano de saúde. Financiar um carro. Pagar o IPTU, fazer revisão no veículo. Comprar remédios. Pagar o condomínio. Declarar Imposto de Renda. Etc, etc...

Diabos, eu não faço nada disso. Estou na asa dos meus pais até hoje. E tenho 31 anos. Eu sinto um tanto de vergonha quando me pego me analisando por esses termos. Não quero ser essa pessoa mais. Não quero estar nessa pele aos 40. Mas será que querer é suficiente?


A mudança só vem para os que se comprometem com os pequenos atos. 


Lutar contra si mesmo nas pequenas ações pode ser uma tarefa Hercúlea. Se dedicar dia sim e dia também a um objetivo distante, porém alcançável, é maior do que a queda de um Titã. Confesso que ainda não consegui internalizar isto. Acho que começar a escrever todos os dias, sem falta, antes que a meia noite se apresente, pode ser um exercício inicial para este modus operandi. No fim das contas, a única pessoa que estou enganando é a mim mesmo. Não vou na academia a dois dias. Eu posso ficar me sentindo mal por isso, ou simplesmente ir até lá nos próximos dias. Encontrar esse ritmo. Esse impulso, este ímpeto.  E me manter com essa força, essa inércia. É isso que irá transformar a minha realidade.

Vencer a Resistência. Por Resistência me refiro àquela voz que me diz para adiar aquilo que deve ser feito. Ela é constante, e insistente na minha personalidade. Não sei desde quando isso se dá, mas é provável que minha tendência a estar em um estado dormente tenha se iniciado no fim da infância, começo da adolescência. Para não me machucar, comecei a simplesmente não sentir absolutamente nada. Esse vazio corroeu tudo ao seu redor, inclusive minha sanidade. Mas isso está no passado agora. Me sinto muito mais centrado hoje em dia. Mas ainda assim, preciso vencer a Resistência. Esse é meu grande Trabalho. É isso que vai ditar meu caminhar daqui pra frente. E só eu posso garantir isso para mim mesmo.

Passei uma grande parte do início da adolescência me sentindo um Lixo. Quando tinha 13 anos, sofri episódios de bullying na escola que frequentava. É difícil falar sobre isso, e corro o risco de parecer pedante e monótono ao fazer-lo. Mas tudo gira em torno da figura de Gabriel Castro. Esse moleque me infernizava e virava aqueles que eu considerava amigos, contra mim. Eu só conseguia me sentir um fraco, um nada. algo errado. Na único vez que eu tive a chance de dar um belo soco na cara desse indivíduo, eu também falhei. Me pus a chorar no meio do recreio. Eu nunca acreditei na violência como meio e nunca me vi desempenhando esse papel. "Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere", disse um velho Sábio. Não sei o quanto minhas lágrimas perfumaram Castro. Provavelmente porra nenhuma.

Só sei que esse ano de 2005 foi crucial para mim. Ele ditou toda minha autoestima e me fez me enxergar como um pedaço de bosta que anda. 

Muito duro comigo mesmo? Talvez. Mas acho que a distância que o tempo conferiu a essas situações me trouxe qualquer tipo de sabedoria. Sim, eu ainda me vejo sob uma ótica deturpada de inferioridade. Mas, com tanto tempo que se passou desses traumas, acho que posso estar em paz com a situação toda. Eu estou vivo, estou aqui. Ainda sou capaz de amar e de sentir. Isso que importa. Esse mundo é caótico e injusto. Viver pode ser um castigo, e a existência é uma prisão na maior parte do tempo. Mas precisa ser assim? Outro grande sábio teria dito que o problema nunca é o problema, mas a sua reação diante ao problema. Estar vivo é uma tarefa que desprende de um imenso gasto energético. Talvez não seja a dádiva e a bênção que a maioria dos místicos querem nos fazer crer. Mas estar vivo continua sendo um milagre ao meu ver. O poder de transformação que todo ser vivo desempenha é de fato incrível. Ainda que seja apenas transformar oxigênio em gás carbônico. A respiração é a base da meditação, e a meditação é o caminho para a iluminação, certo? Talvez não tão simples assim, mas eu gosto de simplificar as coisas para melhor desempenhá-las e compreende-las. 





domingo, 24 de setembro de 2023

No banco de Réu

Sempre me considerei um músico. Apesar de não ser daqueles fascinados por teoria musical. Tampouco aqueles que estudam seus instrumentos 10 horas por dia. Praticar, repetir, progredir, aprender. Nada disso nunca me agradou. Eu sempre gostei de compor coisas originais. Mas minhas técnicas de composição sempre foram limitadas apenas por meu gosto e bom senso (?) em Música. Certo, talvez eu tivesse algum talento, mas sempre me faltou ambição. No Ensino Médio, professores certas vezes me descreviam como "vagabundo". Alguém que não primava por todo seu potencial. Estudar nunca foi um interesse genuíno para mim. Isso deixava meus pais malucos, pois minha "única obrigação é estudar"! Sempre tive conforto nessa vida e ainda o tenho. Mas nunca foi fruto do meu Trabalho. Certo, volta e meia consigo um freelance para compor trilhas sonoras de Videogames (outra paixão minha), mas nunca me rende mais do que uns 40 dólares a cada três meses, por alto. Esses bicos começaram quando resolvi aliar meu gosto por jogos com a fascinação por música. Tentei a faculdade de Desenvolvimento de Jogos Digitais. E como todos os outro cursos superiores que prestei, falhei em me formar. Mas conheci pessoas  e vivi coisas interessantes. E tornei esse meu ofício mais eficiente. Meus fonogramas já não soam tão amadores assim, e conseguem agradar clientes aleatórios de outras partes do mundo. Se isso é o suficiente para ser bem sucedido nessa sociedade monetarista, isso é outra história...

Dinheiro. Dinheiro sempre foi um problema. E uma tentação. Sou da opinião de que dinheiro não deveria existir para a sociedade funcionar de maneira justa. Mas quando tenho dinheiro nas mãos, não hesito em gastá-lo para obter fetiches de consumo. Contraditório, como tudo que é humano. Não que eu seja um gastador compulsivo, até porque não tenho fundos para tal, mas não penso no dinheiro enquanto investimento. Seria um péssimo empreendedor. Dinheiro é um meio e não um fim. Se é isso que eles querem, que peguem o meu. E me deem minhas tranqueiras. Meu fone de ouvido para trabalhar nas minhas músicas. Meu mixer de DJ para aprender a tocar em festas, se necessário. Minha placa de vídeo nova para o meu computador, que já está lutando para rodar os jogos dessa geração. A infinidade de Games que eu compro e nunca termino. O dinheiro é um obstáculo para todas essas coisas. Eu o odeio. Eu o desejo veementemente.

Mas não só nessas questões estritamente pessoais, e pra não dizer egoístas. Dinheiro, ou a falta dele, também me impede de pensar no longo prazo. Não consigo ver meu futuro ao lado de um relacionamento afetivo. Como eu vou sair com uma mulher se não consigo nem pagar um café? Sei que não deve ser tão duro assim, e deve haver pessoas na mesma situação que eu. Mas seria confortável ter uma certa independência financeira. Seria bom ter um apartamento só meu, talvez um carro. Um lugar para ir todas as manhãs, um emprego. E é aí que começa a minha empreitada.

Sempre vou ser um artista. Mesmo que o seja apenas nos momentos de lazer. Não tenho a pretensão de monetizar a minha música. Poucas as vezes a obrigação de produzir algo me trás algum tesão no ofício. Mas, no fim das contas, se eu não quero vender a minha arte, o que sobra? Força de trabalho. E é nesse ponto que eu resolvi que quero ser Funcionário Público. Comecei a estudar pra um concurso de Banco. Carreira bancária nunca passou pela minha cabeça quando eu era criança ou adolescente. Mas quanto mais o tempo passa mas eu noto que não podemos fazer só o que ressoa com nossos sonhos e aspirações. A vida adulta também é feita de momentos em que fazemos não o que queremos, mas o que devemos fazer. Eu devo isso aos meus pais, a minha família. Ter uma estrutura nessa vida e conseguir planejar um futuro, cuidar do meu bem estar, estar equilibrado mentalmente, emocionalmente, financeiramente. Tudo isso eu preciso fazer para honrar aqueles que me trouxeram até aqui.

É engraçado. Eu sempre fui um idealista e sempre estive convencido de que não seguiria uma carreira tradicional. Não me renderia a turma dos engravatados. Eu acreditava ser um rebelde, alguém que estaria sempre contra a corrente. Mas vejo que isso, em grande parte, era só um reflexo da imaturidade, dos pensamentos ingênuos, da idealização do que deveria ser a vida de alguém "autêntico". Pra quê isso tudo? A quem eu estou querendo me afirmar dessa maneira? Porque me preocupo, ou preocupava, tanto com minha imagem de revoltado e "inconformado"? Esse preciosismo todo me privou de vivências. E eu sento aqui em frente a este computador e brinco de ser escritor. Mas pra escrever é preciso viver. Eu definitivamente deveria ler mais também, mas, viver é urgente.

Acho que o grande problema sempre foi a procrastinação. Estive muito acostumado aos prazeres imediatos, fáceis, sem esforço. Trabalhar em algo com frequência, constância e persistência sempre foi muito difícil pra mim. Sempre que vejo o lampejo de uma rotina se formando, minha tendência é abandonar, procrastinar. Mesmo nesse exato momento, estou quase me forçando a escrever em meu esforço para reverter essa mania. Comecei a me exercitar fisicamente, pois estou muito acima do peso e minha saúde e condicionamento físico não são lá essas coisas. É difícil ir com frequência à Academia. Mas, pelo menos, estou sempre acompanhando de um grande amigo meu, o Henrique. Isso ajuda a manter a rotina. Estou trabalhando aos poucos nesse problema da procrastinação. E fazer algo 5 vezes por semana, como ir à academia e  suar um tanto, já é uma grande mudança ao meu ver. O grande questão será manter. E isso também pode se aplicar à rotina de estudos para o Concurso.

Resolvi que vou estudar 4 horas por dia. Ou, pelo menos, assistir 4 horas de videoaulas por dia. Hoje foi o primeiro dia que segui esse meu novo cronograma então ainda não consigo avaliar o quanto isso está me impactando enquanto ser humano. Mas estudar, dizem, pode ser libertador. Adquirir conhecimento nunca vai ser um desperdício. Hoje, por exemplo, notei que não sou tão ruim assim em compreender a gramática da língua portuguesa e sua morfologia. Na escola eu sempre tive muita preguiça pra aprender qualquer coisa, inclusive a minha língua materna. Então é como se eu estivesse tirando um atraso de uns 15 ou 20 anos. Ou mais. E afinal, se estou tentando desempenhar este papel de escritor, ter uma relação com a língua pode ser produtivo.

Sobre escrever: Eu preciso ler. Eu leio muito pouco. Jogo muitos videogames e leio pouco. Preciso retornar ao hábito da leitura. Então decidi que vou começar pela obra de Tolkien. Pretendo ler o Silmarillion, depois O Hobbit, e então a trilogia O Senhor dos Anéis. Eu nunca terminei essa última, apesar de já ter lido o primeiro livro umas 2 ou 3 vezes. Acho que ler mais vai ser uma grande fonte de inspiração para seguir escrevendo.

Este texto está cada vez mais se parecendo com um diário. Não sei até que ponto isso é bom. Nem se interessaria a alguém ler essas coisas. Mas eu tenho esse sonho estranho de escrever o suficiente para compilar um livro. Será que essas reflexões são dignas de uma publicação? Dizem que a melhor coisa que alguém pode escrever é sobre a própria vida. Estar destrinchando aquilo que é familiar, imediato a existência, te dá uma certa autoridade e firmeza ao tratar do assunto em questão. Pelo menos é isso que penso. Minha vida não é uma aventura. Nem um romance apaixonante. Na verdade, minha vida é bem monótona. Mas o melhor e mais capacitado escritor para tratar dela sou eu mesmo.



domingo, 19 de março de 2023

Eu (parte 2)

 as vezes não sei o que quero fazer
as vezes não sei como deveria viver
minha psicóloga fala em aprender a servir
claro que ela tem razão, eu não deveria ser tão

autocentrado. Talvez, por mais pessimista que eu seja, em relação a mim mesmo, eu me coloco no centro
 
e distorço a verdade à minha imagem e semelhança.

faz muito tempo que não escrevo nada. Sempre achei que escrevo melhor bêbado. Isso que dá ler bukowski e nunca mais parar.
Mas eu tô parando.... aos poucos.

A luz lá fora dá vida às cores. O verde das palmeiras. O cinza do asfalto. A sensação de ter a vida breve passando em instantes efêmeros. A vida, dizem, é uma experiência curta. Não acredito nisso. A vida é longa. E passa na velocidade que tem que passar.

Existir é um mero acaso. Será isso verdade? Que seja. Eu gosto de estar aqui. Digitando palavras soltas numa nota auto-adesiva. Eu sigo refletindo sobre minha própria existência. Como um trompetista improvisando um jazz numa noite quente. Como Chet Baker instrospectivo lamentando sua última namorada.

Eu posso, e devo, amar meu semelhante. Eu deveria encontrar uma mulher a quem pudesse servir e amar. Eu deveria ser um servo do desejo alheio, para convencer meu egoísmo da sua insignificância. Eu deveria resignificar toda a forma de se encarar. Não é uma fuga. Fugir de si mesmo é a coisa mais burra. E ao mesmo tempo intuitiva. Que alguém nascido 1992 poderia fazer.

Eu acredito no coletivo. Eu aprendi o socialismo dando voltas no mundo. No "meu" mundo. Ninguém me forçou a pensar do jeito que penso. Ninguém me forçou a vender minha força de trabalho. Eu só quero estar em paz. No lugar onde nasci. Nesse país desigual. Nesse Distrito preso em si. Eu quero acreditar. No potencial de bondade de todas as pessoas. Eu sou inocente, pois dou uma chance ao pior dos bandidos. Porque olho nos olhos deles e penso "ok", "ele vai levar meu celular", "mas talvez consiga mudar sua existência material nesse mundo competitivo e insano", "eu não mereço esse aparelho de qualquer forma".

O mais bondoso dos deuses não merece a humanidade. Não tem nada de bonito em estar desesperado. Mas o Redentor perdoa seus irmãos, humanos. Pois Consciência é isso. É ser misericordioso com todos os seres.

Eu não quero me colocar no centro, como fiz um tempo atrás. Eu não quero ser o início - e o fim - do mundo. Eu só quero ser David. E estar pronto pra próxima segunda-feira.

Eu posso - e vou - viver essa vida adulta. Eu nunca quis envelhecer. Mas não depende de mim. Estou vivo. Estou aqui. E vou seguir.

Seguir escrevendo sob títulos definitivos.

Agradeço a todos os amigos que estão aqui.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Já vi árvores mais tristes que você num condomínio de classe média alta.

 Sabe como é... pandemia e os caralho. Faziam dois anos que eu não saia de casa. Até que em determinado momento, galgado na minha discrição e na sabedoria dos Deuses, eu resolvi sair de casa. Vesti minha máscara e pensei: Vou tomar um porre.


Não que eu não estivesse bebendo aqui dentro. Mas beber na rua.... talvez fizesse as coisas acontecerem. A roda da fortuna nunca para de girar. Tudo depende de quando você resolve saltar fora dela.


Me olhei no espelho. Ali estava um cara não tão mais jovem. Com 30 anos na cara você não tem mais desculpas. Ajeitei a máscara no rosto, cuidei para o nariz estar bem protegido (eu acredito na Ciência, afinal) baguncei meu cabelo milimetricamente e andei pelo corredor.


A gata laranja estava na sala, deitada no sofá. Me olhou com desconfiança.


- Oi, Belle. - tentei ser carinhoso.


Ela pulou fora para a varanda e me deu as costas.



Tirei minha chave do bolso, abri a porta da área de serviço. Desci as escadas do primeiro andar  e ganhei a rua. 

Tudo parecia o mesmo. As pessoas continuavam suas vidas normalmente. Quem liga que tantos conhecidos tenham morrido? Andavam pra lá e pra cá com seus cachorros pinscher, passeavam preguiçosamente enquanto suas crianças saltavam e perambulavam energicamente. Nada afeta os habitantes de Águas Claras. Pouco tempo atrás chegou a notícia de uma guerra. Um presidente conservador e um povo tendendo para o neofascismo estavam se engalfinhando no outro lado do mundo, por causa da geopolítica, e do status quo ditava a venda de armas. Eu também ligava pouco. Não era pra esse tipo de reflexão que eu resolvi dar uma volta.


Caminhei desesperançado até o bar. Ali estavam os mesmos bêbados de sempre, abusando da paciência dessas mulheres que lá trabalham. Uma moça mais velha chamada Carla, e uma garota uns 10 anos mais nova que eu, que nunca prestei atenção no nome. Elas lidam com esses chatos sem-noção com uma prática implacável. Estão sempre ligados no futebol, e sempre prontos a dar opinião sobre assuntos que pouco dominam. Me esgueiro entre um macho escroto e outro e abro a geladeira das cervejas. Pego uma. Normalmente, pegaria 5, e rumaria para casa. Mas hoje é dia de fazer as coisas acontecerem, não é mesmo?

Quando começo a andar até o caixa, noto que uma fila se formou. Me planto atrás de uma jovem de cabelos pretos. Espero minha vez.

Ela se vira e olha pra mim.

- Itaipava! - ela diz com um sorriso. - Essa é da boa.

- É boa porque é barata. Nada muito além disso.

Ela ri.

- Quanto menos dinheiro, mais álcool no sangue!


Aí estava um ser humano sábio. Ela devia ter pouco menos que minha idade, mas transbordava carisma e sabedoria. Usava uma franja meio emo que combinava com as fivelas azuis no cabelo. Seus olhos eram de um castanho claro e suave. Ela me fitou com esses olhos, por cima da máscara de pano preta com uma estrela vermelha do lado esquerdo. Retribuí o olhar. Ambos soubemos que estávamos compartilhando um tipo de confidência rara. Dessas que parecem até uma amizade provada pelo tempo. Apesar do pouco tempo.

 Olhei para o que ela estava segurado. Uma garrafa de Heineken.

 

- Heineken! - Eu disse num ímpeto salutar. - Parece que alguém recebeu o salário hoje.

- Se é que pode se chamar de salário. Recebi um pix e é isso que importa.

 - Sei bem como é. Às vezes temos o suficiente pra uma noite. Às vezes temos noites demais pra ter o suficiente.

- Nosssaa.... seria poético se não fosse tosco - Ela ri, dessa vez mais alto. - Mas gostei do aforismo. Você é poeta? Escritor freelancer?

- Sou músico.

- Ai, gente, tadinho...

 - É, sei sei. Tô na base da cadeia alimentar.

- Talvez pior até que eu. E olha que eu sou ilustradora.

- Artista plástica?

 -UnB, 2016.

 - Porra, aí sim... eu nunca consegui me formar em porcaria nenhuma.

 - Não importa. Pelo menos você tá fazendo o que gosta. Querendo ou não, isso é um privilégio. 

- Um entre muitos, né. Homem, jovem, hétero cis e branco. Não deveria estar tão na base assim.

- Talvez a pobreza voluntária seja sua virtude.

- Gostaria de acreditar que sim. Mas, também, seria gostoso limpar minhas lágrimas com uma nota de 100.

Ela riu de novo.

 

Chegou a vez dela. Ela colocou a garrafa no balcão e tirou o celular do bolso. Escaneou o QR Code do pix do bar que está colado com durex no balcão.


Só isso, meu bem? - Carla perguntou com esmero.

- Por enquanto, só. Vamos ver como a noite se desenrola.


Carla ri.



Paguei com meu cartão de débito. Aquele cinza que tem uma guitarra desenhada na parte da frente. Às vezes acho que preciso me afirmar como músico com frequência, do contrário, jamais o seria.


- Desculpa - eu disse, seguindo a garota enquanto saíamos do bar. - Eu não peguei seu nome - provavelmente eu estava traduzindo uma expressão em inglês ("didn't catch your name"). Nem me toquei que, em português, isso soava como um flerte mais do que eu gostaria. Me dei conta disso pouco depois e me senti meio idiota. Porque, afinal, eu usava expressões de sitcoms estadounidenses pra me expressar? Acho que o complexo de vira-lata afeta até um esquerdista como eu.

 

- Ah, eu sou a Bia! Beatriz.

 

- Beatriz! 

 - Pode me chamar de Bia - dissemos ao mesmo tempo.

- Gostei da sua máscara 

- Bonita, né? Eu que fiz.

- Uau! Ficou da hora.

- Bem, "eu que fiz" é exagero. Provavelmente chineses em condições análogas a escravidão fizeram. Eu só pintei a estrela.

 Nós rimos.

- Nunca entendi esse rolê dos trabalhos precarizados na China. O partido Comunista não faz nada pra impedir essa bagaça?

- Contradições do socialismo real! Mas não sou nenhuma perita em comunismo Chinês.

 

 

Estávamos de pé em frente ao bar. Ela se sentou no meio fio, sem se importar. Eu fiz o mesmo, ao seu lado.

 

 

Ficamos alguns segundos em silêncio.


- Essa pandemia derrubou muito a gente, não é? - Eu perguntei sem saber muito pra onde esse papo ia nos levar


- Porra, totalmente. - Ela disse - Todo mundo que eu conheço está com algum problema. Ansiedade, depressão, autodepreciação. Parece que nossa geração passou por um momento de pagar pelos pecados.

- Isso é pesado. - Eu disse, dando um gole na minha cerveja. - Mas, no fim das contas, talvez também seja um momento de catarse.

- Em que sentido?

- Acho que no sentido de ver que nossos problemas pré-pandemia são pequenos. E se podemos superar esse caos que foi colocado sem a nossa permissão, podemos passar por muita coisa.

 - Gosto de como você pensa. Eu costumo ser a garota pessimista do rolê. Mas meu coração é  mole no fim das contas.

 - Parecer durona pra não deixar transparecer, mas sentir tudo com intensidade? Esse sou eu também.

 - Hahaha... Sim. Você realmente fala como um artista, já te disseram isso?

 Deu um gole com um sorriso num canto da boca.

 - Eu tento me expressar de acordo com minha essência. Ainda que não saiba fazer isso o tempo todo.

- No fim das contas, tudo o que existe é ser você mesmo. Trair isso é um pecado mortal.

 - Você fala muito em pecado, é católica?

Ela pareceu surpresa. Riu em seguida e deu um gole em sua cerveja.

 - Estudei em escola católica a infância inteira. Na adolescência fui pra Escola Pública. Foi o começo da minha rebeldia.

 - Você quis ir?

Ela assentiu.

 - Não fazia sentido pregar o amor aos pobres e nunca ter olhado alguém mais necessitado que eu nos olhos.

- Uau. Faz sentido. Forte isso. Eu estudei um ano em uma escola católica também. Mas transitei entre as escolas particulares pequeno-burguesas a infancia e adolescência toda.

- Um brinde - Ela propôs, erguendo sua Heineken em frente ao meu nariz. - Aos pobres e aos excluídos!

 

Ergui minha lata de Itaipava e bati na Heineken dela. Tome um vigoroso gole e notei ela me olhando de canto de olho enquanto bicava sua cerveja.

 

- Que tipo de música você faz?

- Trilha sonora pra Games, principalmente. É o que tem me movido ultimamente. Mas talvez minha essência esteja bastante no Rock e Metal. Especificamente Stoner Rock e Doom Metal nos ultimos 10 anos.

Ela me olhava enquanto eu falava. Parecia entrertida.

- Caralho, 10 anos.... Já faz uma década que eu descobri a última tendencia que me fez mergulhar na minha capacidade criativa. Acho que to ficando velho.

- Você não parece velho. Quantos anos tem?

- 30.

 - Hum. - Ela engoliu um gole - Achei que tinha bem menos. Vinte e poucos?

- Eu não pareço tão velho mesmo. Culpo a falta de barba. 

- Mas isso é bom. Sinal de boa genética. 

- Não que eu me esforce muito pra ter boa saúde. Mas realmente não tenho do que reclamar.

- Um pouco de cada vez te leva longe - Ela disse - Caminhar todos os dias já ajuda muito.

- Sim, sim.... tem razão. Preciso vencer minha inércia física.

- É só fazer. Se forçar e cumprir um compromisso consigo mesmo.

- E essa é a parte mais difícil.

 - Sim, total.

- Um brinde às partes difíceis da vida. - Eu disse, erguendo minha lata de Itaipava em frente ao nariz dela.

 

Brindamos. Logo depois ela se levantou e perguntou: "vamo andando"?

 - Pra onde?

- Qualquer lugar. Não gosto muito de ficar aqui.

 Os homens estavam assistindo um jogo de futebol e berrando de quando em quando, enquanto faziam comentários escrotos sobre os jogadores. Eu também não era muito fã desse ambiente. Assenti. Me levantei e fomos caminhando juntos. 



Anoitecia. O céu estava quase em nuvens e era possível ver estrelas se mostrando timidamente. Andamos em silêncio lado a lado por um minuto inteiro.



- É aqui que eu fico. - Ela disse.

 

- Aqui? Onde você mora?

 - Longe de tudo. Perto de nada. No fim das contas, tudo o que temos somos nós mesmos.

 

- Que?

 

 

Ela simplesmente desapareceu diante dos meus olhos. Como se nunca estivesse estado lá. Como se fosse uma película de filme se transpondo sobre outra. Um efeito maravilhoso, e cálido.

 

No fim das contas eu sempre estive só.