quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Vida no bar

Julio tinha 27 anos e acabara de sair de um relacionamento de 5 anos. Estava no velho bar da 403 sul. Bebia o litrão de cerveja desesperadamente, acendia um cigarro atrás do outro, tentava esquecer que estava vivo.

O rock 'n' roll é uma força motriz interessante. Tudo começou em uma festa da universidade Federal. Era o seu 4º semestre de psicologia, curso que acabou por abandonar depois de ter publicado um romance de relativo sucesso. Mas, na época, Julio nem sonhava que sua prosa iria pagar o aluguel. Estava lá, com os velhos amigos do Ensino Médio. Jeans surrado e jaqueta de couro. Sempre com a porra do cigarro na boca. "Essa merda ainda vai me matar", ele pensava enquanto se lembrava do passado, mas, na época, fumar ainda era uma atividade juvenil e glamourosa.

Era uma festa de calourada. Dj's iriam tocar o melhor do rock britânico, dubstep, trance, outras músicas de maluco. Mas a grande atração era "Carol Vaughan e os Vermes Assassinos".
"Que nome mais escroto, velho!" Julio disse aos amigos quando ficou sabendo. Todos riram. Era um puta nome escroto mesmo. "E quem é essa 'Carol'? Quem ela pensa que é pra roubar o sobrenome do Stevie Ray Vaughan?"  Seus amigos concordaram. Era muita prepotência. Essa cidade só tem banda bosta atualmente. É muito ego e pouca honestidade musical.

Julio já estava de porre  e ascendia seu ultimo cigarro quando a banda de Carol começou a tocar.

Dois moleques magrelos e uma garota loura subiram no palco. A plateia rugiu. Todos os amigos dela estavam presente, ao que parecia. Equiparam seus instrumentos, e a tal garota foi até o microfone principal com uma stratocaster branca em punho.

"Eu sou a Carol e nós somos os Vermes Assassinos!"

A casa quase veio abaixo.

"Puta merda, hahahaha" disse Julio.

As primeiras notas começaram.

O cigarro de Julio veio ao chão. Sua boca estava escancarada. A música o fez entrar em estado de transe.

Era Texas Flood do Steve Ray Vaughan. Executado por uma única guitarra. A guitarra de Carol Vaughan. E a voz. Ela tinha uma voz grave, afinada. Muita personalidade envolvida. Não era um cover qualquer. Era uma versão de uma musicista competente.




Carol descia do backstage quando foi abordada por um garoto descabelado.

"Carol?"

"Eu!"

".... Aquilo foi... incrível!... quer dizer, você deve ouvir isso o tempo todo."

Ele era bonito.


"Eu nunca vi ninguem executar SRV com tanta precisão! Você usa corda .013?"

"Hahaha... não. Uso .011. É o máximo que consegui chegar"

"Mesmo assim... uau! Não imaginava que eu ia ouvir blues de qualidade hoje.... obrigado!"

"Eu que agradeço.... cara.... Desculpa, mas qual seu nome?"

"Julio. Julio Branco."

Os olhos dela brilharam

"Julio Branco!? Aquele Julio Branco? Autor do blog "Cartas d'Além da Ponte?"





Não é preciso dizer, a conexão foi instantânea. Dentro de um ano estavam morando juntos.
Ele era a musa dela, e vice-versa. Ela amara-o desde o início. Desde a primeira vez que acessara o blog de poesias. E o blues-rock dela o seduzira irreversivelmente. A voz dela, as sardas, os olhos verdes. O jeito blasé dele, os cabelos rebeldes, os olhos castanhos. "Você deveria fazer cover de Strokes" Ela sempre dizia. Ele parecia mesmo com Julian Casablancas. Mas cantava como um camelo com sede.




No fim das contas, tudo era passado. Não interessa como tudo terminou. Ele só queria esquecer, de qualquer forma.

Julio acendou outro cigarro e olhou para dentro do bar. Carlos, um rapaz de cabelos negros encaracolados e óculos de armação grossa, desviava dos transeuntes e se aproximava de sua mesa. Julio suspirou fundo. Um rosto amigo. Havia esperança, afinal.

Carlos sentou-se.

-  Rapaz, que fossa heim. - Disse enquanto olhava o engradado quase cheio no pé da mesa.

- Cadê O Rodrigo??

- Foi visitar a família no Mato Grosso.

-Estranho ver vocês separados....

- Nós somos indivíduos, lembra?

-Vocês são um casal bonitinho.

Todos diziam o mesmo de Julio e Carol.

- Pode ser. Mas e você, meu caro? Como está?

- Uma merda. a vida é uma merda.

- Clichê....

- Todo clichê é uma verdade absoluta..... Absoluta, absolute, será que eu deveria pedir uma dose de vodka? EI, SOUZA!

Carlos abaixou o braço de Julio.

- Você já tá podre de bêbado. Que tal ficar só na cerveja?

Julio deu um olhar atravessado, completamente alcoolizado, para Carlos,

-Ok, ok... vou seguir o seu conselho. Você tem TALENTO para conselhoss....

-Eu tento. Me dá um.

Julio alcançou os Lucky Strikes para Carlos. Os dois acenderam seus cigarros e ficaram um bom tempo em silêncio.







- Ela disse que eu continuo o mesmo. Depois de todos esses anos. Ela disse que eu nunca vou tomar jeito.



- Isso... isso é duro, cara.

- É uma merda. Eu achava que ela me conhecia melhor do que ninguém. Se alguém que te conhece tão bem diz que você é um bosta que nunca vai amadurecer, como é que a gente fica? Na bosta. Só me resta isso. A fossa. A fossa para um bosta.

- Amar não é uma tarefa fácil.

- O amor é algo que se dissipa com os primeiros raios de realidade.

- Ok, Bukowski, ok.

-A bosta, a merda, a bosta, a merda merda merda merda merda....

Julio se inclinava para frente, até beijar a mesa do boteco.


- Sabe, Julio... talvez seja melhor assim. Talvez você precise de um tempo sozinho. Pode ser bom pra você.

- A puta que te pariu.

- No fim das contas, amar também é deixar partir. Você precisa se conhecer de novo. 5 anos juntos é um bom tempo.

- Você só ta falando isso pra evitar que eu tenha um coma alcóolico.

- Não. Eu realmente penso isso.


Carlos levantou-se.


-Olha, eu preciso ir. Vê se não bebe o bar inteiro, ok?

- Hhmmmmmm.......

- Te cuida, Branco.

- Dá um beijo no teu bofe por mim.


Carlos riu.

-  Darei.

Afagou os cabelos sebosos de Julio e se foi.

Julio acendeu o ultimo cigarro. Olhou para as estrelas. Galáxias distantes. Muitos daqueles pontos luminosos nem existiam mais. A vida humana é insignificante comparada à imensidão de tudo.

Pediu a conta. Levantou-se e foi pagar no caixa. Pôs-se a caminhar na entrequadra.

O telefone celular vibrou. Uma mensagem. Dela.





"Você vai me odiar se eu disser que sinto sua falta?"




Julio sorriu.




"Enquanto eu existir, te odiar não é uma opção", pensou.


















sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Dragonauta

Dave abriu os olhos e não acreditou no que via:

O céu virara sangue, fogo por toda parte, era o fim. O apocalipse. O armageddon. O Juízo Final.

Ou seria apenas o começo?

Uma sombra leviatânica cruzou o solo, escurecendo o dia que já estava sombrio o suficiente. O garoto olhou para cima e viu a criatura.

Vermelho da cor do sangue. Quente como lava. Se aproximou e parou em uma pose titânica. Não havia dúvidas: era o Senhor dos dragões.

- "O que te traz aqui, mortal? Perdido por entre as dimensões paralelas da agonia. Os tolos cristãos da tua Terra chamam esse lugar Inferno, e apenas o atormentados garantem sua passagem para este plano. Longe de casa, do ventre da tua mãe. Desmamado como um bezerro indefeso. Me dê um único motivo para não devorá-lo."

Dave sentiu suas mandíbulas doerem tamanha era sua boca aberta. A voz de trovão do Dragão quase o fez mijar nas calças. A única coisa que lembrava era de ter adormecido em segurança em sua cama.

-" Eu..... Eu estava em  casa. Não sei o que está acontecendo."

Os olhos de esmeralda da criatura dantesca encontraram os tímidos globos oculares castanhos do menino. Passado, presente, futuro, tudo estava contido naquela alma anciã. Conhecimentos há tanto perdidos. Civilizações inteiras massacradas. Inúmeros heróis abatidos em vão. Os gritos e choros de inocências perdidas. Tudo girava nos pensamentos de Dave. Sentiu que o fim estava próximo. Simplesmente fechou os olhos e esperou pela mordida infernal do Dragão.

O lagarto riu.

- "Hu hu hu hu hu hu ....."

Trovões verdes no céu vermelho emulavam a risada do ser mastodôntico. Era como se o Hades inteiro estivesse achando graça. A fragilidade de um inocente era uma deliciosa piada.

- "Tolo! Não importa agora as circunstâncias que o trouxeram aqui! Tua hora vai chegar. Tua carne será arrancada de teus ossos, e teus gritos me deliciarão por alguns segundos apenas. Alguns segundos! É tudo o que preciso para garantir que tua alma sofra por uma eternidade. Mas, por enquanto, não há muito que eu possa fazer. Uma aura estranha te protege. Os tolos chamam de fé. Os bravos chamam de coragem. Mas eu sei que se trata apenas de destino."

- "Destino?" - perguntou, aflito, o garoto.

- "Destino." - disse, simplesmente, o desmesurado dragão. - "Algo o prende no mundo de lá. Cada ínfima parte do universo tem um papel fundamental no Todo. É sabido. Nada acontece antes da hora, nem depois. Tudo está perfeitamente cronometrado.

- "Que viagem....."

- "Viagem!? Não viste nada ainda.

O dragão virou-se e abaixou o pescoço.

- "Suba. Te mostrarei o que é uma viagem."

Dave subiu no dorso da criatura astronômica e segurou-se nas escamas. O Senhor dos Dragões levantou vôo. Planaram violentamente até o Olho Carmesim. Voaram sob o Céu Vermelho de Marte. Surgia assim, O Dragonauta.




  

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Nova Postagem

Me deu vontade de escrever aqui, mas não tenho o que dizer.

Ah, diabos, talvez uma cachaça me fizesse bem agora, mas não tenho nada do tipo aqui em casa.

Tudo bem, em Belém. Sei lá. Vida que segue sem muitas surpresas. Eu tava ouvindo uma música boba no youtube, uma que nunca tinha ouvido, mas que estranhamente me deu uma sensação de nostalgia muito forte. Daí resolvi clicar em "Nova Postagem".

Acho que nostalgia é o maior combustível que tenho pra escrever ultimamente. As coisas pareciam ser mais simples na época que comecei esse blog. Ensino Médio e tal. Já faz bem uns 8 anos que resolvi criar isso aqui... nunca foi lá essas coisas. Mas rendeu bons momentos, bons insights. Isso parece soar como uma despedida. Haha. Não é. Ainda vou continuar escrevendo aqui. Esperem pelo aniversário de 10 anos. Espero estar em Brasília quando isso acontecer. Sair pra encher a cara com as pessoas certas e relembrar  tempos da nossa blogosfera. É. Eu gostaria disso.

"E como anda a sua vida?" É uma pergunta que alguém poderia me fazer. Acho que a resposta é a mesma desde que tinha 16 anos: Eu não faço a mínima ideia do que eu tô fazendo aqui. E sabe... nem quero mais saber. Acho que desisti de encontrar um sentido para a existência da vida e do universo. É uma questão que me atormentou seriamente durante um certo período. Volta e meia ainda penso na morte. E quem não pensa? O que é morrer? É deixar de existir? É o vazio e o nada eterno? É quando nos tornamos Um com o Universo. Ou não. De qualquer forma, é perda de tempo (e de sanidade) se questionar demais quanto a isso. Merda, a vida pode ser maravilhosa em muitos sentidos. Não é justa. Não é bonita, não o tempo todo. Mas é o que tem pra hoje.

 "Disconnect and self-destruct
One Bullet at a time
What's your rush now?
Everyone will have their day to die..."

Eu definitivamente já fui muito auto-destrutivo na minha vida. É uma atitude egoísta. Encher o cu de maconha e acreditar que sou Deus. Não foi o meu melhor momento. Mas a gente vai aprendendo com essas merdas. Vai amadurecendo de tanto se foder. Ou você morre jovem e prepotente ou fica velho e medroso. "O problema da velhice é que ela logo chega" palavras do meu avô. O tempo de uma vida humana é mesmo insignificante... mas é o suficiente pra aprender uns macetes. No meio da minha viagem, quando eu acreditei ter encontrado "o sentido da vida" minha conclusão foi essa: Estamos aqui para amar e aprender. Vai dizer que eu estava errado? Eu tava em outro mundo. Preso e perdido dentro de mim mesmo. Mas algumas loucuras têm seus momentos de lucidez. Mas porque que eu tô falando nisso, mesmo? Ah... estávamos falando sobre a vida e a morte, essas coisas. Minha conclusão é essa: Eu não sei porque existimos, mas já que estamos aqui... vamos tentar tirar o melhor proveito da porra toda.

Vamos ver... o que mais? Depois de ficar todo filosófico é difícil falar de qualquer outra besteira. Eu poderia tomar uma cerveja agora. Eu poderia beijar alguém. Eu gostaria, na verdade, de sair pra encontrar aquela garota do Tinder. Mas ando muito inseguro. Eu sempre fui inseguro. Talvez eu devesse mandar tudo à merda e meter a cara na rua.

Bom... esse texto já tá se estendendo demais. Já não tenho muita coisa pra falar, já estou soando como um idiota. Melhor parar....  
   

Se alguém ler isso, faça-me um favor: Comente. Seria legal ter alguma interação com algum leitor desgarrado que por acaso resolveu revisitar isso aqui.


sexta-feira, 24 de junho de 2016

Dança do Coveiro

Escrito à 3 mãos por R.D.G.  em 19/06/16



Tornei-me um ébrio
E na bebida busco esquecer
Aquele ingrata que eu amava
E que me abandonou

Levantei da cama, fui até a pia e lavei a cara. Me pergunto, olhando no espelho, se meu reflexo sente as mesmas coisas que eu. Acho que não. Lembrei que tenho que ir pro trabalho. Fui à cozinha e comecei a preparar o café. Pensei na vida e na inevitabilidade da morte.
Um dia vou morrer”, disse em voz alta.
Ouço uma voz cantarolando uma melodia no andar de cima. É minha vizinha gostosa ensaiando pra banda de Ska em que ela canta. Vou até a janela e abro as cortinas. Na minha melhor voz de ressaca, começo a cantar bem alto:
Tua voz me traz lembranças
De dias melhores
Da minha juventude miserável
Onde nada mais me importava
A não ser os olhos da minha amada
Ouço uma risada sincera. Por onde anda minha juventude miserável agora? Talvez nas garrafas vazias em cima da mesa. A vida nada mais é do que uma sucessão de fracassos e derrotas. Penso em me matar novamente. A voz celestial do andar de cima volta a cantar, sempre em ritmo de Ska:
Tua juventude
Não me parece tão distante
Tua voz tão áspera
Mostra uma ternura
E nunca é tarde demais
Para se ser jovem
Balanço a cabeça nervosamente. Isso precisa parar. Vou até a porta num ímpeto, determinado a ir até esse bendito andar de cima. Subo as escadas, decidido, e bato em sua porta.
Quem é?”, ela pergunta.
Sou eu, seu vizinho de baixo.
Vá embora!”, ela diz, com medo.
Eu hesito por um momento. Que diabos eu tô fazendo? Fecho os olhos com força. No fundo, não fazemos nada além daquilo que precisamos. Bato de novo na porta.
Preciso falar com você.
Sobre o quê?”, ela pergunta, vacilante.
Eu não sei”, respondo.
Ela abre a porta e percebe que estou nervoso. Ela ri e me convida para entrar. A casa dela é incrivelmente limpa. Entro e fico parado no meio da sala, até que ela me convida para sentar. Vacilante, me sento num sofá verde-limão.
Aceita um café?”, ela pergunta.
Não tenho certeza, mas respondo que sim, porque parece certo. Ela ri novamente e vai preparar o café. Fico observando seus movimentos na cozinha.
Você faz o quê mesmo?”, ela grita de lá.
Sou coveiro”, respondo.
Que mórbido”, ela diz. “Quer dizer, desculpa.
Não, eu concordo, é totalmente mórbido.
Você ou o trabalho?
Encaro o chão por um tempo e volto a olhar ao redor. Ela tem uma coleção de corujas disposta cuidadosamente sobre a estante.
Corujas simbolizam sabedoria, né? Ou algo assim…”.
Sim”, ela diz, meio nervosa, meio lisonjeada com a observação. “Não que eu seja sábia. Mas admiro quem é.
Você é sabia, mais do que eu, em muitas maneiras.
Como você pode saber isso? Nem nos conhecemos.
Todos nós nascemos sábios. E morremos ignorantes.
Um silêncio - talvez mais longo do que o normal - e ela volta com duas canecas de café. Me entrega a preta e fica com a branca. Senta ao meu lado.
Então, você queria conversar comigo…
Já estamos conversando, não?
Era isso que você queria?
Ela olha diretamente nos meus olhos e eu não faço ideia do que o seu olhar quer dizer. De repente, ela diz que vai pegar um papel e uma caneta. Ela caminha até a gaveta do hack da TV, abrindo-a. Um ninja salta de lá de dentro, soltando uma bomba de fumaça e desaparecendo em seguida.
Que diabos foi isso?”, pergunto, atônito.
É meu companheiro de quarto, me ajuda com o aluguel, mas desde que começou a estudar ninjustu, anda com umas manias…
Ela senta ao meu lado e me passa o papel e a caneta.
Escreva a primeira coisa que vier à sua mente”, ela diz.
O futuro é incerto e o fim está sempre próximo.
Jim Morrison?”, ela pergunta.
Jim Morrison”.
Ela toma o papel e a caneta e passa um certo tempo me encarando. À essa altura todo o nervosismo há havia se dissolvido no café. Ela escreve algo e me devolve o papel. Um tanto mais seguro, leio em voz alta: “nos próximos minutos do seu futuro, o que você deseja que aconteça?”.
Sexo”, eu respondo.
Ela encara o papel e morde os lábios.
Pensava que você seria mais original do que isso”, ela diz, visivelmente decepcionada.
E você? O que você quer?”, eu pergunto.
Sair daqui.
Ela se levanta e vai em direção à porta, agarrando um casaco. O casaco parece vesti-la. Ela olha para trás.
Você não vem?”.
Eu me levanto num salto. Sigo ela porta afora, novamente nervoso, lembrando do meu trabalho. Saímos.
Desculpa, mas não sei o seu nome.
Atena”, ela responde.
Atena… Nome bonito.”
Obrigada.”
Olha, desculpe… Eu não queria soar como um idiota. Mas eu faço isso. Eu destruo as coisas. Acabo com as expectativas.
Eu não tinha nenhuma expectativa sobre você, então tá tudo bem. Você devia tentar.
Fazer ficar tudo bem?
Não ter expectativas.
Acompanhei seus passos escada abaixo. Tentei imaginar o que ela diria em seguida. Na verdade…
Acho o silêncio mais confortável.
Hm?
Desculpa, acabei pensando alto.
Você pede desculpas demais”, ela parecia aborrecida.
Chegamos até o térreo. Ela parou um instante e se virou para mim. Fitou meus olhos pelo que pareceu uma eternidade.
E agora?”, perguntou.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Um sonho à tarde

Aeroporto Internacional Indira Gandhi, Nova Délhi. Fim de tarde.

Uma enxurrada de pessoas transita para dentro e para fora do aeroporto. Estou em uma fila interminável em frente a um terminal. Está quase na minha vez. Olho para trás e tenho um relance do trânsito caótico nas ruas lá fora. Carros e tuk-tuks disputam as faixas. Uma eventual vaca passa tranquilamente entre os pedestres. Tem um maluco de bigode e meio gordo com um rádio à pilha grudado no ouvido, atrás de mim. Toca uma música pop indiana um tanto quanto escandalosa, mas não deixa de ser interessante, antropologicamente falando.

Chega a minha vez. Me aproximo do balcão.

-Sim, senhor? - Chama a moça ao balcão.

- Uma passagem para Okinawa, Japão, por favor.

- Claro, senhor. Queira apresentar um documento de identidade, por favor?

Apresento. Ela olha curiosa.

- Brasileiro! Que legal. - Ela diz com um sorriso encantador

-.... hã... obrigado?

Dou uma boa olhada nela. Ela não parece uma indiana comum. Tem traços do extremo leste asiático, japonesa, talvez. Mas sua cor de pele é bem local. Claramente uma mestiça.

- A passagem é para hoje?

- Sim.

- Temos horários disponíveis a partir de 19 horas.

- Ótimo. Pode confirmar.

Ela não era nada mal. Nada mal mesmo. Gostaria de sair com ela e tomar uns drinks, dançar, cantar karaokê, andar de mãos dadas ao luar. Qualquer coisa seria bem vinda.

- Aqui está, senhor.

Pego a minha passagem com ela.

- Me responde um pergunta?

- Claro, senhor.

- Essa passagem me dá direito à sua companhia durante o vôo?

Ela me olha curiosa. Finalmente entende aquilo como uma cantada. Ela fica levemente ruborizada.

- Haha, creio que não, senhor.

- Tudo bem.

- Sempre quis conhecer Okinawa, quem sabe uma próxima vez.

- Nesse caso, estarei esperando.

- Ha ha - Ela tinha uma risada linda - ha ha ha!


Me afasto do balcão e subo em uma escada rolante. Sinto que estou com certa fome.


A cena corta para às 19:00, o embarque para Okinawa começa pelo portão 34.

A aeronave cruza o oceano índico, calmamente. Foi uma viagem tranquila.


Mais um corte. Estou saindo do avião por um dos portões de desembarque. Escuto uma voz atrás de mim.

- Senhor! Senhor!

Viro para trás e lá está a atendente de Nova Délhi. Ela trazia uma pequena mala de rodinhas.

- Como foi sua viagem, senhor?

Olho para ela e algo de estranho acontece. Não era ela. Era uma homem. Um japonês de meia idade com uma cara completamente desinteressante. Ela continua a falar com sua voz de homem:

- Okinawa é uma beleza, o senhor vai ver.

- Sim.... mas tem algo errado.

- O que?

- Isso não vai dar certo.

- O que não vai dar certo?

- Quero dizer, você é um homem!

- Oh.

- Sim. Eu não esperava por isso.


Que azar o meu. Onde estaria a garota do aeroporto?


A cena corta mais uma vez. Estou à beira da praia, em uma bar localizado em uma modesta barraca de palha. A atendente de Nova Délhi está comigo, dessa vez em sua forma de mulher, e mais uma amiga. Estamos os três bebendo caipirinhas. Feitas de vodka Absolut.

- No Brasil, fazemos com cachaça.

- Meu sonho é conhecer o Brasil! - Diz a amiga dela.

- Sou suspeito pra falar. Sempre gostei do meu país. Mas é difícil falar dele. É um país enorme.... bom, vocês provavelmente pensam em conhecer o Rio de Janeiro durante o carnaval, em fevereiro.

- Mas é claro! - Elas dizem em uníssono e caem na risada - Ha ha ha ha ha!

- Parece um bom programa, mas se querem a minha dica, deveriam conhecer a capital, Brasília. É uma coisa completamente única nesse mundo. Nunca vai haver nada igual na face da terra...

- Está com saudades de casa, senhor? - Ela pergunta, tocando o meu pulso. Eu seguro sua mão.

- Não exatamente. Estou onde eu queria estar.

Viro a caipirinha de uma vez e olho para trás. Há uma piscina termal natural logo em frente ao bar. Jovens se jogam e espalham água quente para todos os lados. Crianças correm em seus pequenos trajes de banho ao redor da piscina, rindo com graça e inocência. Okinawa. Quem diria. Eu e duas garotas.


Acordei na minha cama.


Gostaria de ter mais sonhos assim...







terça-feira, 7 de junho de 2016

Superficial

A noite é superficial
Só puta e polícia nas ruas
Quando eu era um homem de 22 anos eu amava a noite
A melhor hora para encontrar as pessoas
A melhor hora pra ficar sozinho
Beber em grupo, chapar solitário.
Muitas vezes já desejei que o alvorecer nunca chegasse

Hoje em dia não é tanto assim mais.
Não é porque eu amadureci
(sou só um garoto de 24, afinal)
Não é porque o dia é tão melhor que a noite
É porque dia, noite, entardecer
Pra mim parece ser tudo o mesmo
Todo mundo quer as mesmas coisas
Todo mundo está indo para algum lugar,
pra no final do dia fazer as mesmas coisas
Talvez um dia eu também quisesse
Ganhar dinheiro
Comprar uma casa
Constituir família
Trabalhar
Contribuir para a previdência
Viver sempre repetindo as mesmas coisas ínfimas
Até o fim da vida

Não.
Hoje em dia, não.
Eu não quero nada disso
Eu tô cagando pra esse sistema
Pode soar como coisa de adolescente revoltado
E talvez seja
E também, talvez os jovens tenham mais razão do que os velhos alienados
Deve ter outra saída
Deve ter outra solução para que dia e noite não se torne uma coisa só
Uma eterna repetição de afazeres
Que só serve para circular o dinheiro $$$
E ninguem se importa se você preferiria se mudar pra pirenópolis e plantar comida orgânica
Ninguém se importa se você gosta de fazer pão
Ninguém liga pra porra nenhuma.
Chega a noite, todos ligam a televisão
Fica por isso mesmo.
Superficial.