sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Dragonauta

Dave abriu os olhos e não acreditou no que via:

O céu virara sangue, fogo por toda parte, era o fim. O apocalipse. O armageddon. O Juízo Final.

Ou seria apenas o começo?

Uma sombra leviatânica cruzou o solo, escurecendo o dia que já estava sombrio o suficiente. O garoto olhou para cima e viu a criatura.

Vermelho da cor do sangue. Quente como lava. Se aproximou e parou em uma pose titânica. Não havia dúvidas: era o Senhor dos dragões.

- "O que te traz aqui, mortal? Perdido por entre as dimensões paralelas da agonia. Os tolos cristãos da tua Terra chamam esse lugar Inferno, e apenas o atormentados garantem sua passagem para este plano. Longe de casa, do ventre da tua mãe. Desmamado como um bezerro indefeso. Me dê um único motivo para não devorá-lo."

Dave sentiu suas mandíbulas doerem tamanha era sua boca aberta. A voz de trovão do Dragão quase o fez mijar nas calças. A única coisa que lembrava era de ter adormecido em segurança em sua cama.

-" Eu..... Eu estava em  casa. Não sei o que está acontecendo."

Os olhos de esmeralda da criatura dantesca encontraram os tímidos globos oculares castanhos do menino. Passado, presente, futuro, tudo estava contido naquela alma anciã. Conhecimentos há tanto perdidos. Civilizações inteiras massacradas. Inúmeros heróis abatidos em vão. Os gritos e choros de inocências perdidas. Tudo girava nos pensamentos de Dave. Sentiu que o fim estava próximo. Simplesmente fechou os olhos e esperou pela mordida infernal do Dragão.

O lagarto riu.

- "Hu hu hu hu hu hu ....."

Trovões verdes no céu vermelho emulavam a risada do ser mastodôntico. Era como se o Hades inteiro estivesse achando graça. A fragilidade de um inocente era uma deliciosa piada.

- "Tolo! Não importa agora as circunstâncias que o trouxeram aqui! Tua hora vai chegar. Tua carne será arrancada de teus ossos, e teus gritos me deliciarão por alguns segundos apenas. Alguns segundos! É tudo o que preciso para garantir que tua alma sofra por uma eternidade. Mas, por enquanto, não há muito que eu possa fazer. Uma aura estranha te protege. Os tolos chamam de fé. Os bravos chamam de coragem. Mas eu sei que se trata apenas de destino."

- "Destino?" - perguntou, aflito, o garoto.

- "Destino." - disse, simplesmente, o desmesurado dragão. - "Algo o prende no mundo de lá. Cada ínfima parte do universo tem um papel fundamental no Todo. É sabido. Nada acontece antes da hora, nem depois. Tudo está perfeitamente cronometrado.

- "Que viagem....."

- "Viagem!? Não viste nada ainda.

O dragão virou-se e abaixou o pescoço.

- "Suba. Te mostrarei o que é uma viagem."

Dave subiu no dorso da criatura astronômica e segurou-se nas escamas. O Senhor dos Dragões levantou vôo. Planaram violentamente até o Olho Carmesim. Voaram sob o Céu Vermelho de Marte. Surgia assim, O Dragonauta.




  

2 comentários:

vipsces disse...

Descrição do inferno inspirada no calor do Pará?

quero mais capítulos de Dave, o Dragonauta

Gian Rech disse...

Caralho, que prólogo foda, hein? Já estou chamando de prólogo porque adoraria ler mais disso. As reflexões sobre a vida, a mortalidade, a fé e a história da humanidade, nos diálogos entre um jovem e um dragão.
Plus, melhores adjetivos de todos! Mastodôntico foi uma obra-prima!
Quero mais capítulos também, Dave, the Dovahkiin