sexta-feira, 10 de junho de 2016

Um sonho à tarde

Aeroporto Internacional Indira Gandhi, Nova Délhi. Fim de tarde.

Uma enxurrada de pessoas transita para dentro e para fora do aeroporto. Estou em uma fila interminável em frente a um terminal. Está quase na minha vez. Olho para trás e tenho um relance do trânsito caótico nas ruas lá fora. Carros e tuk-tuks disputam as faixas. Uma eventual vaca passa tranquilamente entre os pedestres. Tem um maluco de bigode e meio gordo com um rádio à pilha grudado no ouvido, atrás de mim. Toca uma música pop indiana um tanto quanto escandalosa, mas não deixa de ser interessante, antropologicamente falando.

Chega a minha vez. Me aproximo do balcão.

-Sim, senhor? - Chama a moça ao balcão.

- Uma passagem para Okinawa, Japão, por favor.

- Claro, senhor. Queira apresentar um documento de identidade, por favor?

Apresento. Ela olha curiosa.

- Brasileiro! Que legal. - Ela diz com um sorriso encantador

-.... hã... obrigado?

Dou uma boa olhada nela. Ela não parece uma indiana comum. Tem traços do extremo leste asiático, japonesa, talvez. Mas sua cor de pele é bem local. Claramente uma mestiça.

- A passagem é para hoje?

- Sim.

- Temos horários disponíveis a partir de 19 horas.

- Ótimo. Pode confirmar.

Ela não era nada mal. Nada mal mesmo. Gostaria de sair com ela e tomar uns drinks, dançar, cantar karaokê, andar de mãos dadas ao luar. Qualquer coisa seria bem vinda.

- Aqui está, senhor.

Pego a minha passagem com ela.

- Me responde um pergunta?

- Claro, senhor.

- Essa passagem me dá direito à sua companhia durante o vôo?

Ela me olha curiosa. Finalmente entende aquilo como uma cantada. Ela fica levemente ruborizada.

- Haha, creio que não, senhor.

- Tudo bem.

- Sempre quis conhecer Okinawa, quem sabe uma próxima vez.

- Nesse caso, estarei esperando.

- Ha ha - Ela tinha uma risada linda - ha ha ha!


Me afasto do balcão e subo em uma escada rolante. Sinto que estou com certa fome.


A cena corta para às 19:00, o embarque para Okinawa começa pelo portão 34.

A aeronave cruza o oceano índico, calmamente. Foi uma viagem tranquila.


Mais um corte. Estou saindo do avião por um dos portões de desembarque. Escuto uma voz atrás de mim.

- Senhor! Senhor!

Viro para trás e lá está a atendente de Nova Délhi. Ela trazia uma pequena mala de rodinhas.

- Como foi sua viagem, senhor?

Olho para ela e algo de estranho acontece. Não era ela. Era uma homem. Um japonês de meia idade com uma cara completamente desinteressante. Ela continua a falar com sua voz de homem:

- Okinawa é uma beleza, o senhor vai ver.

- Sim.... mas tem algo errado.

- O que?

- Isso não vai dar certo.

- O que não vai dar certo?

- Quero dizer, você é um homem!

- Oh.

- Sim. Eu não esperava por isso.


Que azar o meu. Onde estaria a garota do aeroporto?


A cena corta mais uma vez. Estou à beira da praia, em uma bar localizado em uma modesta barraca de palha. A atendente de Nova Délhi está comigo, dessa vez em sua forma de mulher, e mais uma amiga. Estamos os três bebendo caipirinhas. Feitas de vodka Absolut.

- No Brasil, fazemos com cachaça.

- Meu sonho é conhecer o Brasil! - Diz a amiga dela.

- Sou suspeito pra falar. Sempre gostei do meu país. Mas é difícil falar dele. É um país enorme.... bom, vocês provavelmente pensam em conhecer o Rio de Janeiro durante o carnaval, em fevereiro.

- Mas é claro! - Elas dizem em uníssono e caem na risada - Ha ha ha ha ha!

- Parece um bom programa, mas se querem a minha dica, deveriam conhecer a capital, Brasília. É uma coisa completamente única nesse mundo. Nunca vai haver nada igual na face da terra...

- Está com saudades de casa, senhor? - Ela pergunta, tocando o meu pulso. Eu seguro sua mão.

- Não exatamente. Estou onde eu queria estar.

Viro a caipirinha de uma vez e olho para trás. Há uma piscina termal natural logo em frente ao bar. Jovens se jogam e espalham água quente para todos os lados. Crianças correm em seus pequenos trajes de banho ao redor da piscina, rindo com graça e inocência. Okinawa. Quem diria. Eu e duas garotas.


Acordei na minha cama.


Gostaria de ter mais sonhos assim...







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