Aeroporto Internacional Indira Gandhi, Nova Délhi. Fim de tarde.
Uma enxurrada de pessoas transita para dentro e para fora do aeroporto. Estou em uma fila interminável em frente a um terminal. Está quase na minha vez. Olho para trás e tenho um relance do trânsito caótico nas ruas lá fora. Carros e tuk-tuks disputam as faixas. Uma eventual vaca passa tranquilamente entre os pedestres. Tem um maluco de bigode e meio gordo com um rádio à pilha grudado no ouvido, atrás de mim. Toca uma música pop indiana um tanto quanto escandalosa, mas não deixa de ser interessante, antropologicamente falando.
Chega a minha vez. Me aproximo do balcão.
-Sim, senhor? - Chama a moça ao balcão.
- Uma passagem para Okinawa, Japão, por favor.
- Claro, senhor. Queira apresentar um documento de identidade, por favor?
Apresento. Ela olha curiosa.
- Brasileiro! Que legal. - Ela diz com um sorriso encantador
-.... hã... obrigado?
Dou uma boa olhada nela. Ela não parece uma indiana comum. Tem traços do extremo leste asiático, japonesa, talvez. Mas sua cor de pele é bem local. Claramente uma mestiça.
- A passagem é para hoje?
- Sim.
- Temos horários disponíveis a partir de 19 horas.
- Ótimo. Pode confirmar.
Ela não era nada mal. Nada mal mesmo. Gostaria de sair com ela e tomar uns drinks, dançar, cantar karaokê, andar de mãos dadas ao luar. Qualquer coisa seria bem vinda.
- Aqui está, senhor.
Pego a minha passagem com ela.
- Me responde um pergunta?
- Claro, senhor.
- Essa passagem me dá direito à sua companhia durante o vôo?
Ela me olha curiosa. Finalmente entende aquilo como uma cantada. Ela fica levemente ruborizada.
- Haha, creio que não, senhor.
- Tudo bem.
- Sempre quis conhecer Okinawa, quem sabe uma próxima vez.
- Nesse caso, estarei esperando.
- Ha ha - Ela tinha uma risada linda - ha ha ha!
Me afasto do balcão e subo em uma escada rolante. Sinto que estou com certa fome.
A cena corta para às 19:00, o embarque para Okinawa começa pelo portão 34.
A aeronave cruza o oceano índico, calmamente. Foi uma viagem tranquila.
Mais um corte. Estou saindo do avião por um dos portões de desembarque. Escuto uma voz atrás de mim.
- Senhor! Senhor!
Viro para trás e lá está a atendente de Nova Délhi. Ela trazia uma pequena mala de rodinhas.
- Como foi sua viagem, senhor?
Olho para ela e algo de estranho acontece. Não era ela. Era uma homem. Um japonês de meia idade com uma cara completamente desinteressante. Ela continua a falar com sua voz de homem:
- Okinawa é uma beleza, o senhor vai ver.
- Sim.... mas tem algo errado.
- O que?
- Isso não vai dar certo.
- O que não vai dar certo?
- Quero dizer, você é um homem!
- Oh.
- Sim. Eu não esperava por isso.
Que azar o meu. Onde estaria a garota do aeroporto?
A cena corta mais uma vez. Estou à beira da praia, em uma bar localizado em uma modesta barraca de palha. A atendente de Nova Délhi está comigo, dessa vez em sua forma de mulher, e mais uma amiga. Estamos os três bebendo caipirinhas. Feitas de vodka Absolut.
- No Brasil, fazemos com cachaça.
- Meu sonho é conhecer o Brasil! - Diz a amiga dela.
- Sou suspeito pra falar. Sempre gostei do meu país. Mas é difícil falar dele. É um país enorme.... bom, vocês provavelmente pensam em conhecer o Rio de Janeiro durante o carnaval, em fevereiro.
- Mas é claro! - Elas dizem em uníssono e caem na risada - Ha ha ha ha ha!
- Parece um bom programa, mas se querem a minha dica, deveriam conhecer a capital, Brasília. É uma coisa completamente única nesse mundo. Nunca vai haver nada igual na face da terra...
- Está com saudades de casa, senhor? - Ela pergunta, tocando o meu pulso. Eu seguro sua mão.
- Não exatamente. Estou onde eu queria estar.
Viro a caipirinha de uma vez e olho para trás. Há uma piscina termal natural logo em frente ao bar. Jovens se jogam e espalham água quente para todos os lados. Crianças correm em seus pequenos trajes de banho ao redor da piscina, rindo com graça e inocência. Okinawa. Quem diria. Eu e duas garotas.
Acordei na minha cama.
Gostaria de ter mais sonhos assim...
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