Eles estavam sentados à uma mesinha redonda, na varanda de um café qualquer no centro da cidade. Suas xícaras esfriavam com o vento. Ameaçava chover, mas provavelmente não iria.
- Então, você ficou sabendo da Diana não é?
- Do aborto involuntário, você tá falando?
- É.
- Sim. Fiquei.
- Triste não é? Ela com certeza daria uma ótima mãe. Ela tava muito feliz e ansiosa pra ter esse filho...
- Triste, sim. Mas eu ainda acho que certas tragédias vêm pro bem.
- Como assim??
- Fala sério. Ela mal completou dezoito anos, tinha dezessete quando soube que tava grávida. O que ela ia fazer da vida tendo que criar uma criança na flor da idade? Ela nem se formou ainda. Pode ser muito triste o que aconteceu e tal, mas acho que no fim das contas vai ser bom.
- Você soa como um velho frio.
- Talvez. Olha, eu sei que ela ia ficar realmente puta comigo se me ouvisse dizendo isso, mas por mais que ela realmente quisesse ter essa criança, não era a hora certa. Pode ser doloroso o que ela tá passando agora, mas ela tem que entender que ela tem toda a vida dela pela frente agora. É como um novo começo.
- E desde quando ter filhos é deixar de viver?
- É deixar de viver para si mesmo. Quando se é tão jovem assim é preciso ter a liberdade de poder se preocupar consigo mesmo em tempo integral...
- Você tem um ideia bem egoísta das coisas.
- ... por uma questão de sobrevivência. Quando eu tinha dezoito anos não sabia nem mesmo o que eu ia fazer com a minha vida, imagina ter que ensinar um outro ser humano a viver!
- É meio errado se usar como ponto de referência em casos como esse. Você nunca vai saber o que é um sentimento materno com um pênis no meio das pernas.
- Claro... mas eu sei o que é ser jovem e cheio de sonhos... e sei também que sonhos não passam disso: Sonhos. Projeções irreais da nossa imaginação. É preciso muito suor pra transformar um sonho em realidade, e 90% das pessoas desiste no meio do caminho. E um filho é muito mais complicado, porque você pode desistir dos seus sonhos, mas nunca de um filho... assim que eles entram no mundo, é pra sempre. Até quando durar.
- Talvez um dia você se arrependa de toda essa baboseira que você gosta de cuspir nos outros sem pensar duas vezes.
- E porque eu faria isso?
-Por quê.... eu tô gravida.
Ele se levanta de supetão da mesa do café e saca suas duas .45, disparando-as para acertar todos os pontos vitais da moça. Ela cai no chão, sangrando e começa a se contorcer violentamente, seus olhos brilham com um carmesim intenso e fumaça negra começa a sair de todos os seus orifícios faciais. Finalmente derrotada, ela desiste.
- Testando comunicação com Nave-Mãe, responda Nave-Mãe.
(ruído metálico) - Sim, aqui é a Nave-Mãe, qual o status da missão? (ruído metálico)
- O último dos spider-bots foi eliminado. Foi uma tarefa árdua, me exigiu meses, mas finalmente consegui enxergar através do seu capcioso disfarce. Peço autorização para retornar.
(ruído metálico) - Autorização concedida, preparar para desmaterialização (ruído metálico)
- Estou pronto.
Ele caminhou até o meio da rua e olhou para cima. Uma intensa luz anil desceu dos céus e transformou seu corpo em poeira cósmica, que subiu, subiu e subiu... Ele estava voltando para casa.
Começou a chover.
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Um comentário:
Belo retorno.
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