Aparentemente, o objetivo último da interação dos animais com o meio em que vivem e as relações entre seus pares, é a sobrevivência e reprodução da espécie. Hábitos de vida, convivência e sociabilidade reproduzem condições que visam a preservação e aprimoramento dos seres. Isso cria estruturas organizadas, em certo grau de complexidade, que regem os diversos comportamentos desses seres em seus inúmeros aspectos de existência (alimentação, integridade física, localização geográfica, alojamento, etc.)
O ser humano não difere dessa lógica. Exceto pelo fato de que parte desses comportamentos sociais depende do aprendizado, e não meramente de instinto. A Humanidade tem uma bagagem cultural tão extensa quanto sua bagagem genética. E, em nossa condição humana, necessitamos das reciprocidades com nossos pares para despertar o nosso potencial como espécie. Precisamos do outro para sermos humanos. Para ensinar e aprender com o outro, nos valemos da comunicação estruturada na linguagem, que por sua vez é composta por símbolos.Vivemos, para além da vida física, um Universo Simbólico, a partir do qual atribuímos e comunicamos aos nossos semelhantes um sentido para nossa existência. Assim, transferimos experiências e conhecimentos através da reflexão. Esse arcabouço simbólico de experiências e conhecimentos nos permite situar-nos no tempo e espaço, pensar e compreender o passado, e planejar o futuro. É a base do pensamento científico. A Ciência não seria possível sem os alicerces culturais de organização, interpretação e transformação da realidade.
Assim como as diferentes culturas, existe uma pluralidade na forma de pensar e intervir na realidade que provêm das especificidades de vivências de determinados grupos. Somos únicos e distintos, agimos de acordo com necessidades específicas de nosso ambiente imediato, e pensamos o mundo de acordo com experiências e conhecimentos forjados por indivíduos únicos: Nós e nossos pares. A pluralidade é uma característica Humana. Somos limitados enquanto indivíduos, mas as formas de pensar e agir são, virtualmente, infinitas. Há uma (ou talvez mais) para cada ser humano que viveu, vive e viverá. Somos eternos aprendizes, pois nossos professores estão em toda parte.
A Ciência deve se valer dessa pluralidade. O estudo da sociedade passou pelo abandono de preconcepções míticas e religiosas, e pela valorização da racionalidade humana para compreender as forças da vida coletiva que regulam essas sociedades. Através da observação empírica e objetiva é possível, assim como o resto da realidade, organizar, interpretar e transformar a vida social. Existem diversos métodos e mecanismos de estudo que fazem isso possível. Mas um deles seria a padronização de determinados segmentos sociais. Nós somos únicos enquanto indivíduos, porém podemos ser categorizados e encaixados na sociedade de acordo com características como idade, etnia, religião, nacionalidade, ocupação profissional, ideologia política, etc. Essas diversas facetas e características coletivas de um indivíduo podem ser objeto de estudo das Ciências Sociais. E as conclusões objetivas desses estudos podem, e devem, influenciar a Ciência e a Ação Política.
Em suma, estudar a sociedade para transformá-la pressupõe estar alinhado com a essência plural dos seres humanos. É acreditar que a voz de todos pode ser ouvida, que as vivências e conhecimentos de todos têm valor. É incluir os excluídos. É dar oportunidades iguais de sobrevivência e aprimoramento pessoal a todos os cidadãos. É se colocar contra a alienação que gera pessoas deslocadas e solitárias. É garantir que o coletivo esteja a serviço de todos, e que toda forma de vida seja respeitada e acolhida.

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