terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Surreal Parte 3

A porta de vidro fechou-se às minhas costas com um estalo metálico. Ventava muito e ela andava rapidamente à minha frente com passos apressados e confiantes, enquanto seu vestido verde-claro esvoaçava majestosamente como uma bandeira, em sincronia com os cabelos vermelhos.

Assim que saímos debaixo do bloco, pude distinguir uma chuva muito fina decantando através das luzes amarelas dos postes que iluminavam a quadra. Logo choveria ainda mais forte. Me lembro de estar pensando o quanto isso a desagradaria quando a vi parada metros à minha frente com aquela expressão de desafio. Eu tinha ficado para trás e, para ela, isso era levemente inadmissível. Também me lembro de pensar que, se ela fosse quarenta anos mais velha, eu acharia aquele olhar detestável, em vez de cativante.

- Vem logo, idiota! - gritou.
- Você sabe meu nome, porque continua me chamando assim? - perguntei quando cheguei perto
- Porque você é um idiota.

Ela virou e estava pronta para continuar a andar, quando a interrompi.

- Não era eu quem tava te levando pra algum lugar?

Aquele olhar de novo.

- Ou melhor, você sabe pra onde tá indo? - Minha intenção era ser obviamente irritante.
- Claro que não. - ela respondeu desviando o olhar. Nesse momento eu considerei dizer "quem é o idiota então?", mas isso seria desnecessário e confesso que minha orientação sexual não permitiu. Em vez disso apenas dei um riso abafado, satisfeito.

Continuamos andando pela quadra parcialmente iluminada, até que sentamos em um banco de concreto, perto de um bloco em frente ao meu. Ou melhor, eu sentei. Ela ficou de pé à minha frente, de braços cruzados, com cara de quem queria acabar logo com aquilo. E justamente quando eu ia fazer algum comentário idiota sobre estrelas, ela começou:

- Porque você parou de escrever a história?

Olhei nos olhos dela por alguns segundos, muito sério. Ela nem piscou. Desviei o olhar, distraído e comecei a esboçar qualquer resposta.

- Bom... acho que é tudo uma questão de inspiração. Eu prefiro não escrever uma história do que escrever de qualquer jeito...

- Não fala besteira! Eu sei que você enjoou daquilo. Se depender de você, não vamos a lugar nenhum!

Interessante ela falar em "nós". Do jeito que ela estava demonstrando ser (bem diferente da garota que eu tinha descrevido até então), eu poderia jurar que ela estava lá por satisfação própria. Fiquei pensando naquilo, admirando meus pés.

- Como você fez isso? - Perguntei finalmente, levantando a cabeça.
- Isso o que?
- Isso! Sair de um mundo imaginário e pular dentro da minha sala. Quer dizer, você não existe! Você é alguns rabiscos azuis em uma folha A4, no máximo alguns caracteres virtuais em uma homepage, uma idéia dentro da minha cabeça, um conceito na cabeça de alguns dos meus amigos. A caricatura de uma "garota perfeita" -(adicionei essas aspas gesticulando com os dedos, ao lado da minha cabeça) - ao ver de um menino de 14 anos, que, por acaso, também não existe! Você não existe de verdade!

A expressão dela mudou para alguma coisa muito mais tensa. Ela se aproximou com passos firmes e estapeou meu rosto com força. Toquei minha bochecha esquerda e a censurei com um olhar confuso. Quando começou a falar, notei que se esforçava para não lagrimar.

- Esse é seu problema, idiota. Você deveria acreditar mais nas suas idéias.




No fundo, eu meio que me arrependi.

4 comentários:

Pedro disse...

Gostei.

Vinicius disse...

finalmente entendi o sentido de Surreal, ou não né, porque até agora eu nem desconfiava

very nice

Gustavo disse...

Algo me diz que ela existe, pelo menos o suficiente pra te bater.
Haha.
Bacana!

Vinicius disse...

David?

VOLTA LOGO!