quinta-feira, 7 de abril de 2011

Mal-escrito e sem pretensão alguma.

Eram bem umas quatro da tarde e ele dormia atirado de qualquer jeito no colchão largado no chão. Acredite, àquela altura da semana o apartamento já estava mais bagunçado que os seus cabelos. Livros socados na estante empoeirada, garrafas verdes sobre a pequena mesa no centro do cômodo, uma caixa de pizza fazendo aniversário, uma garrafa de vodka pela metade, folhas e mais folhas de com qualquer merda desenhada ou escrita, um papel com um telefone anotado e uma caixa de remédios pra dor de cabeça. Tudo largado. Bem como as emoções.

A campainha tocou às 16:20, como combinado. Tudo que o cara não queria. Não queria levantar. Não hoje. Depois de enrolar um pouco, levantou e foi abrir a porta só de samba-canção e a camiseta branca, que vestia já pela segunda vez.

-“Oi” – O visitante saudou. – “Tava dormindo??”

- “Tava. Entra.”

O rapaz, que era mais alto, entrou no apartamento, tirou o bag da guitarra das costas e colocou o amplificador de lado.

- “Quer uma cerveja?” – Ele perguntou indo em direção à cozinha minúscula, onde era quase impossível fritar um ovo sem bater, sem querer, a bunda na geladeira de vez em quando.

- “Não, valeu.”

Sete goles depois, todos os cabos estavam ligados.

- “Então, sobre aquela música que eu te mostrei da última vez... Eu mudei ela toda. Tirei aquelas partes que você disse que tavam confusas.”

- “Não precisava tirar nada, só acho que precisava arranjar de outra forma.”

-“Mas ficou bom, ouve...”

- “É, ficou bem mais legal mesmo.”

- “Não é? E você? Alguma idéia que queira compartilhar?”

- “Ah, sei lá... – Deu o último gole da cerveja e colocou na mesa. – Tenho andado sem inspiração.”

- “Fácil de resolver. Só cala a boca e toca.”

Eles começaram a improvisar alguma coisa em Bb, mas o guitarrista solo parecia estar sem foco algum. Depois de dois minutos ele largou a guitarra de lado.

- “Foda-se. Não consigo tocar.”

- “Deixa disso.”

- “Deixa disso o caralho! Você não faz idéia de como é difícil passar por essa merda toda!”

-“Ei! Relaxa um pouco, valeu? Não dirigi até aqui pra agüentar seus ataques histéricos de novo!”

- “Ah, vai tomar no cu, cara! Você é o único que ainda insiste com essas bostas de músicas que nunca foram e nem vão pra lugar nenhum!”

- “Ok... Eu vou embora então. De vez.”

- “OBRIGADO SENHOR!” – Ele levantava as mãos abertas aos céus. Depois se trancou no banheiro e se pôs a cagar. Quando voltou, os cabos estavam todos desconectados e o guitarrista base pronto pra partir. Abriu a porta.

- “Ah.” – Virou-se, antes de sair. – “Só quero que você saiba que quando eu disse que nunca tinha aparecido no Gathering naquela noite, eu estava mentido.”

- “O que?”

- “É isso aí cara. Fui eu que comi a Débora.”

- Seu filho da puta!!

- É, achei que seria de boa dizer isso, já que agora nós...

Ele ia terminar a frase em grande estilo, mas uma garrafa verde se partiu na sua cara bem na hora. Caiu desmaiado no chão e só conseguiu morrer em paz quando o braço da Stratocaster se separou do corpo do instrumento. Quer dizer, a guitarra é que foi usada pra afundar o crânio, além do álcool excessivo e de muitas noites mal-dormidas. Meses depois se descobriu que alguns tarjas-pretas teriam evitado essa tragédia, mas ninguém se importou muito. O resto do mundo pouco se fodia pra um músico morto.

Mas quem realmente estava pouco se fodendo era o guitarrista solo, estatelado no meio da avenida.

4 comentários:

Pedro disse...

Muito bom. Muito bom mesmo.

Unknown disse...

Poha...
Simple and clean.
Gostei pacas também, apesar de eu não ser muito chegado a esse tipo de conto.
Pode até ser sem pretensão, Dave, mas mal-escrito não o é.

Unknown disse...

>< UnB... é o Gian, ok?...
Esqueci de sair da conta da Bio ¬¬

Pedro disse...

ao Dave

http://juvenilia-cafe.blogspot.com/