sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Revolução Vermelha de Calradia

PRÓLOGO



Do alto das muralhas de madeira do castelo Tevarin, os besteiros observavam. O acampamento inimigo estava bem além das muralhas externas da fortificação e lançava luzes laranjas e fumaça preguiçosamente noite fria adentro. Em oito horas, iniciava-se a segunda semana de cerco.

Dhorgarrar, Aquele que trás a Alvorada, reivindicava a fortaleza que havia sido cercada e tomada pelo Reino dos Nórdicos  um mês antes. A Revolução do Sol Vermelho havia se estendido até aquelas remotas planícies. Praven, a capital do império Swadico, havia caído nas mãos das tropas revolucionárias um ano antes e agora os Nórdicos desciam do norte para tentar tomar as terras conquistadas por Dhorgarrar. Era a vingança pela audácia do traidor, que em sua juventude, havia se rebelado contra o Rei Ragnar e tomado a própria capital do Reino dos Nórdicos,  Sargoth, e iniciado assim uma revolta com grande apoio por parte dos camponeses, que tinham em Dhorgarrar o primeiro vislumbre de um estilo de vida muito diferente da servidão.

Sentado ao pé da fogueira, um dos Huscarls do Reino do Sol tocava uma canção melancólica em sua flauta. Ao lado dele, Dhorgarrar afiava sua grande espada bastarda. "Honra, Justiça e Valor" estavam inscritos na lâmina em língua comum. Completado o serviço, ele colocou a imponente lâmina de lado e passou a observar pensativo o fogo, enquanto coçava sua barba ruiva

- Matheld. - Ele chamou.

Da tenda militar mais próxima, uma Valkyria surgiu, como que saída do próprio Valhalla. Matheld nada tinha de lendária, era apenas uma mulher. Uma mulher com uma perícia assassina quando se tratava de espadas, tanto que os sussuros dos recrutas e soldados mais baixos eram justamente fofocas relacionando-a com o mito das Valkyrias. Seus cabelos loiros platinados e seus profundos olhos azuis apenas contribuiam com a lenda. Matheld gostava dessa lenda.

- Senhor? - Disse ela com uma voz grave e suave.

- Como está o nosso estoque de flechas?

Matheld deu de ombros.

- 700, 750? Dividas entre dez batalhões de cinco arqueiros devem ser o suficiente.

- Apenas 15 flechas para cada homem? - Espantou-se Dhorgarrar, quase que imediatente, enquanto Matheld espantava-se com seu afiado raciocínio matemático. Para um homem que passara a vida empunhando uma espada, Dhorgarrar lia livros demais. 

- Um bom arqueiro com 15 flechas, mata 15 homens.

Dhorgarrar sorriu.

- Quem me dera todos meus homens atirassem como você. Quem me dera todos tivessem essa tua confiança. Olhe, para eles, Matheld. Esses arqueiros mal saíram de trás da saia de suas mães, são apenas garotos...

- Se você está hesitante, é melhor abandonar este cerco. - Ela não perdoava nenhum detalhe. Principalmente quando sentia falta de seu lar, um salão em um castelo próximo à Sargoth.
Ele gargalhou. Dhorgarrar adorava a compania daquela Irmã em Armas. 

- Hesitante? Não. Nós vamos flechar todos aqueles besteiros, nem que eu e você façamos isso sozinhos.

- Não me leve a mal, acho que estamos demorando muito nesse sítio. Mas eu não pretendo voltar pra casa com o rabo entre as pernas.

- Uma loba feroz como você? Eu vou morrer de velho antes de presenciar tal coisa...
- Espero que você morra em batalha, meu amigo.

Dhorgarrar ficou muito sério, de repente. Ele nunca entendeu os costumes e a honra nórdica, mesmo sendo esse o sangue que corria em suas veias. Ter sido criado em uma universidade longe de Calradia o fez enchergar um mundo muito além da violência de um campo de batalha.
- Prefiro ver meu filhos crescerem. - Ele disse, simplesmente.

Matheld dificilmente conseguia entender esses aparentes sinais de covardia em um guerreiro tão tenaz como ele. A razão disso era ela não entender muito bem essa vida familiar. Seu esposo era seu escudo, sua única filha a espada e seus irmãos, a guarnição de seu castelo. Ela sentou-se ao lado dele.

- Me dê um gole - Ela pediu, estendendo a mão enquanto ele lhe passava um chifre de beber cheio de hidromel.

- Uma pena a cerveja ter acabado. Eu não consigo me acostumar com bebidas doces.

- Que belo nórdico você é.

- Sou um cidadão do mundo!

-... Concordo. Você é mesmo.

E ele realmente era. Dhorgarrar queria unificar Calradia,  acabar com as sangrentas rivalidades entre as diferentes culturas, revitalizar o Antigo Império Calradico. E para isso, ele recrutava soldados de todas as partes do continente, que marchavam juntos, bebiam juntos, cantavam, dançavam, lutavam e morriam juntos. Tudo pela bandeira de Dhorgarrar.Pela Liberdade e pela verdadeira Paz. Pelo Reino do Sol. 

3 comentários:

Pedro disse...

E a continuação, quando sai?

Gian Rech disse...

Maldita seja a hora em que eu pensei "será que tem coisa nova no Título?"
Porra, escreve logo essa continuação, que deu pra sentir o pedaço de Cornwell que você tem em si latejando nesse texto!

Dave C. disse...

Já tenho material pra escrever, só falta escrever...