________________ Aquele que se levanta ________________
Era uma sala de aula. Uma sala espaçosa e cinzenta, onde todos estavam alinhadamente sentados nas carteiras. O quadro de giz lotava-se de termos e mais termos científicos, sobre os quais a professora comentava, e firmava a relevância sobre tal e tal assunto de quando em quando. Ele estava sentado na frente, mas não se importava com nada disso. Sua mente passeava do lado de fora da sala.
Os sons discretos de uma sala cheia de pessoas, fazendo anotações e qualquer outra coisa que alunos fazem quando estão assistindo uma aula calmamente, somado à voz confortante da professora tinham um efeito hipnótico.
"Há todo um mundo lá fora. Eu nunca vou muito além da minha casa, mas eu sei que há muita coisa lá fora. Eu simplesmente sei. Isso aqui é necessário? Eu preciso mesmo ter sucesso acadêmico, sair daqui quatro anos mais tarde, com um diploma? Um diploma é só papel. Dinheiro é só papel. Dinheiro vale tanto quanto um poema. É papel e tinta. Mas todos acreditam que precisamos trocar papel e tinta por comida, roupa, moradia. E a maioria aqui nessa sala, troca seu papel e tinta por coisas inúteis. Comida mais gostosa, roupa mais bonita, moradia mais luxuosa. Estão todos cegos. Eu estou cego. E preciso de um diploma para ter papel e tinta o suficiente para compensar a minha cegueira."
Por um instante, a professora olhou nos olhos dele. Ele entendeu que seus devaneios deveriam ser mais discretos e, por educação, melhorou a postura. Ela continuou falando, continuou a hipnotizar o rapaz.
"Pelo menos ela tem uma voz bonita."
"Pensando bem, ela é bonita."
E com esta, deu razão a muitos de seus colegas. A professora era jovem. Tinha a pele de uma cor saudável, um cabelo longo, ondulado e brilhante e era esguia, esbelta.
"Todos falam que é ela tudo aquilo e tudo o mais. Mas nenhum deles teria coragem de dar em cima dela. Eu não teria. Não pode. Ela é a professora, a mestra, aquela que sabe mais e é humilde o bastante para dividir esse conhecimento com a gente. Um aluno beijar ela seria um crime. Um tabu."
"Além do que, ela deve ter alguém."
Ele fixou o olhar nas mãos dela. Nada na mão esquerda, na direita, apenas um toco de giz. Nenhum anel, nada.
"As pessoas usam anéis de compromisso pelo mesmo motivo que colocam 'namorando' no orkut. Seu amor é correspondido e você vira um idiota. Compra um anel bonito e dá a ela porque não tem coragem de gritar bem alto 'TÔ NAMORANDO!', mas quer que todo mundo saiba. Isso é bom. Nos dias de hoje demonstrações de afeto estão rareando. Ninguém olha nos olhos de um amigo e diz 'eu te amo' com sinceridade, todos os dias. Duvido que alguém dê flores à mãe e um abraço apertado, simplesmente por que lhe ocorreu a idéia, ou dê um sorriso a um estranho na rua, depois de desejar um bom dia. Talvez todos nós temos vontade de fazer essas coisas, mas medo de ser considerados loucos. Aí começamos a namorar para descarregar todo o amor guardado, sufocado, dentro de nós, em uma única pessoa."
Ele fixou o olhar na professora e teve um instante de clareza.
Se levantou delicadamente e andou passos calmos, parando a menos de dois palmos dela.
Ela se surpreendeu e fez uma cara de desconfiança. Ele devia estar com algum problema e ia pedir permissão para se retirar da sala, ou coisa do tipo.
- O que foi? - preocupou-se
Ele coloca as mãos na cintura da professora e aproxima o seu rosto do dela. Os lábios se tocam e ele a beija. Ela tenta empurrá-lo, pressionando o peito dele com as mãos, mas ele a puxa contra ele pela cintura. Ela tenta inclinar a cabeça para trás, mas ele inclina a sua para frente e continua a beijar-la com gosto. Ela instintivamente o dá um empurrão forte e um sonoro tapa no rosto, quebrando o silêncio mortal da sala, que assistia tudo boquiaberta.
Surpresa, desequilibrada, corada e ofegante, a professora se afasta, não conseguindo pronunciar uma palavra. Ele se dirige até a porta e a abre.
E na iminência d'ela gritar alguma reclamação óbvia, ele fala com uma forte convicção:
- Eu te amo. Me processa.
Algumas horas depois, nesse mesmo dia, ela prestou queixa na polícia contra ele. Abuso e danos morais.
Mas nesse exato momento, ele já estava longe, muito longe de casa.
Era uma sala de aula. Uma sala espaçosa e cinzenta, onde todos estavam alinhadamente sentados nas carteiras. O quadro de giz lotava-se de termos e mais termos científicos, sobre os quais a professora comentava, e firmava a relevância sobre tal e tal assunto de quando em quando. Ele estava sentado na frente, mas não se importava com nada disso. Sua mente passeava do lado de fora da sala.
Os sons discretos de uma sala cheia de pessoas, fazendo anotações e qualquer outra coisa que alunos fazem quando estão assistindo uma aula calmamente, somado à voz confortante da professora tinham um efeito hipnótico.
"Há todo um mundo lá fora. Eu nunca vou muito além da minha casa, mas eu sei que há muita coisa lá fora. Eu simplesmente sei. Isso aqui é necessário? Eu preciso mesmo ter sucesso acadêmico, sair daqui quatro anos mais tarde, com um diploma? Um diploma é só papel. Dinheiro é só papel. Dinheiro vale tanto quanto um poema. É papel e tinta. Mas todos acreditam que precisamos trocar papel e tinta por comida, roupa, moradia. E a maioria aqui nessa sala, troca seu papel e tinta por coisas inúteis. Comida mais gostosa, roupa mais bonita, moradia mais luxuosa. Estão todos cegos. Eu estou cego. E preciso de um diploma para ter papel e tinta o suficiente para compensar a minha cegueira."
Por um instante, a professora olhou nos olhos dele. Ele entendeu que seus devaneios deveriam ser mais discretos e, por educação, melhorou a postura. Ela continuou falando, continuou a hipnotizar o rapaz.
"Pelo menos ela tem uma voz bonita."
"Pensando bem, ela é bonita."
E com esta, deu razão a muitos de seus colegas. A professora era jovem. Tinha a pele de uma cor saudável, um cabelo longo, ondulado e brilhante e era esguia, esbelta.
"Todos falam que é ela tudo aquilo e tudo o mais. Mas nenhum deles teria coragem de dar em cima dela. Eu não teria. Não pode. Ela é a professora, a mestra, aquela que sabe mais e é humilde o bastante para dividir esse conhecimento com a gente. Um aluno beijar ela seria um crime. Um tabu."
"Além do que, ela deve ter alguém."
Ele fixou o olhar nas mãos dela. Nada na mão esquerda, na direita, apenas um toco de giz. Nenhum anel, nada.
"As pessoas usam anéis de compromisso pelo mesmo motivo que colocam 'namorando' no orkut. Seu amor é correspondido e você vira um idiota. Compra um anel bonito e dá a ela porque não tem coragem de gritar bem alto 'TÔ NAMORANDO!', mas quer que todo mundo saiba. Isso é bom. Nos dias de hoje demonstrações de afeto estão rareando. Ninguém olha nos olhos de um amigo e diz 'eu te amo' com sinceridade, todos os dias. Duvido que alguém dê flores à mãe e um abraço apertado, simplesmente por que lhe ocorreu a idéia, ou dê um sorriso a um estranho na rua, depois de desejar um bom dia. Talvez todos nós temos vontade de fazer essas coisas, mas medo de ser considerados loucos. Aí começamos a namorar para descarregar todo o amor guardado, sufocado, dentro de nós, em uma única pessoa."
Ele fixou o olhar na professora e teve um instante de clareza.
Se levantou delicadamente e andou passos calmos, parando a menos de dois palmos dela.
Ela se surpreendeu e fez uma cara de desconfiança. Ele devia estar com algum problema e ia pedir permissão para se retirar da sala, ou coisa do tipo.
- O que foi? - preocupou-se
Ele coloca as mãos na cintura da professora e aproxima o seu rosto do dela. Os lábios se tocam e ele a beija. Ela tenta empurrá-lo, pressionando o peito dele com as mãos, mas ele a puxa contra ele pela cintura. Ela tenta inclinar a cabeça para trás, mas ele inclina a sua para frente e continua a beijar-la com gosto. Ela instintivamente o dá um empurrão forte e um sonoro tapa no rosto, quebrando o silêncio mortal da sala, que assistia tudo boquiaberta.
Surpresa, desequilibrada, corada e ofegante, a professora se afasta, não conseguindo pronunciar uma palavra. Ele se dirige até a porta e a abre.
E na iminência d'ela gritar alguma reclamação óbvia, ele fala com uma forte convicção:
- Eu te amo. Me processa.
Algumas horas depois, nesse mesmo dia, ela prestou queixa na polícia contra ele. Abuso e danos morais.
Mas nesse exato momento, ele já estava longe, muito longe de casa.

11 comentários:
Amei esse conto. Definitivamente, não é nada parecido com qualquer coisa que eu já tenha lido. Mas eu amei : )
Putz.. muito bom!!!
Serio mesmo, esse aí eh top entre os que vc ja escreveu aqui..
Sensacional /o/
AMIIIIGA, TÔ BÉÉÉÉÉÉÉÉGE!
Sério, na minha opinião, esse vai ganhar menção honrosa no blog d'A Trindade. E deveria ganhar um Pulitzer, também. Só faltou um trecho:
"Bom dia, professora!"
"OI MEU NOME É WESLEY1!!!11!1!!1"
"preciso de um diploma para ter papel e tinta o suficiente para compensar a minha cegueira." - apenas uma citação, dentre as muitas que me tocaram nesse conto.
David, esse foi realmente um dos melhores que você já postou até hoje.
Não dá pra descrever.
Não seguiu nenhum padrão de narrativa que eu já tenha lido.
Simples, cheio de significância.
Faz todo o sentido do mundo.
David do céu, você fez um negócio muito bonito.
Me desculpa pela palavra "negócio", mas não deixa de ser bonito.
Gostei muito. Vou ler os outros.
Um dia, crianças ainda vão estudar Calandrinismo e pintar seus dentes de preto.
Isso foi um elogio, e dos bons.
"A professora era jovem. Tinha a pele de uma cor saudável, um cabelo longo, ondulado e brilhante e era esguia, esbelta."
Ou seja, totósaaaa!
Ficou muito bom cara! ^^
bravo david apenas bravo
caracas david, tirei o chapéu pra voce
é como dizem...a pratica leva a perfeição
da pra notar a evoluçao drastica não so na linguagem como nas ideias, mto bom msm
só tive tempo de ler agora, a escola tava me matando =P
nao sei se vc vai ler isso antes de sair de qualquer jeito mas...BOM TEATRO MAGICO!!
caraaacas.
muiiito massa david.
vc escreve muiiito bem rapaz.
;D
AHAHHAAH
mt boom!
ê!
algo tão distinto! :D
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